Fernando Pessoa, talvez o nosso melhor poeta, a par de Camões, foi imbuído de um profundo exoterismo, que influenciou a sua obra. E o exoterismo de Pessoa vem-lhe do facto de ter sido maçon. Um facto público e um poema o comprovam…

João ValenteAquando da discussão da célebre lei 1901 na Assembleia Nacional, proibindo a maçonaria e o funcionalismo de pertencer a esta, Pessoa escreveu um célebre artigo no Diário de Notícias, defendendo e enaltecendo as virtudes da maçonaria.
Existe igualmente um poema de Pessoa, que tem passado despercebido em que ele aborda o segredo da maçonaria como um sopro de espírito na alma que o maçon recebe e é incomunicável. Este poema, pelos conhecimentos que revela demonstra que Pessoa foi maçon.
Por isso, muitas vezes, nem tudo o que parece; nem tudo o se diz, é!
Isto tudo vem a talhe de foice não para falar de Pessoa, mas de Shakespeare, o maior escritor da língua Inglesa, que pela tradição foi também maçon, o que justificaria porque além de católico, as suas obras estão imbuídas da filosofia platónica.
Tal doutrina, caracteriza-se pela preocupação com os temas da moral, com base no conhecimento das verdades essenciais/modelos que determinam a realidade, visando toda meditação filosófica o conhecimento do Bem (que no ideal platónico era o Sol/Luz de todas as outras ideias).
O conhecimento do Bem, a suprema ideia que ilumina todas as outras, torna possível a implantação da justiça entre os estados e entre os homens. Tais pressupostos foram absorvidos e são o alicerce do pensamento/filosofia ocidental, e também da simbologia maçónica.
Há uma íntima e harmónica ligação entre o plano do conhecimento e da acção (moral, política), e a ferramenta que possibilita essa articulação é a filosofia ao libertar o espírito dos cuidados do corpo, como afirma Descartes O filósofo assume, então, uma dupla missão especulativa e operativa.
Por essa razão o percurso maçónico tem duas vertentes: A especulativa, na busca do conhecimento e combate às trevas, numa tentativa de apropriação do real. Por outro lado a vertente operativa, pois ser possuidor de um saber, conduz a que esse saber deva ser aplicado na transformação do homem e do mundo, tal como Platão encarava na tarefa do «Filósofo-Rei».
Nesta dupla dimensão é de fundamental importância o «Filósofo-Rei», que venceu as paixões pela razão/sabedoria (Homem platonicamente Bom, Belo e Justo, virtudes correspondentes às colunas do templo maçónico), representando a luz do conhecimento para os seus concidadãos exercendo a essencial condução no destino do estado democrático.
O homem, tornado filósofo através da busca de si mesmo («Homo gnosce te ipsum, Visita Interiorem Terrae, Rectificandoque, Invenies Occultum Lapidem»).
Por isso os heróis das obras de Sakespeare lutam contra uma insurreição interior da alma, consequência do eterno conflito entre o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio. O herói shakespeariano é inicialmente nobre, mas entretém uma fraqueza que o fará sucumbir à tentação. Assim é a ambição para Macbeth, o ciúme, para Otelo e o puritanismo, para Ângelo. O herói cai, mas levanta-se. Ele rejeita o amor para satisfazer sua paixão desregrada cometendo um assassinato. Vai ao interior do seu próprio ser, toma consciência do mal que existe nele, e supera-o conduzindo e alterando o destino superando-o com a própria morte. O herói shakespeariano é um idealista que se perde no niilismo por não encontrar resposta às suas questões. É um homem platónico, por antenomásia.
Paradigmática é a célebre obra de Hamelet em que o enredo decorre na Dinamarca. O rei é envenenado furtivamente por seu irmão Cláudio, que usurpa a coroa e desposa sua cunhada Gertrudes, mãe de Hamlet. O espectro do rei assassinado aparece a Hamlet, revelando-lhe as circunstâncias da morte e instigando-o à vingança. Hamlet denuncia a corrupção da corte (Há algo de podre no reino da Dinamarca. Também o há no de Portugal, mas isso é outra história) e ama a filha do lorde camareiro Polónio, Ofélia. Entretanto, ele sofre de melancolia e pensa até no suicídio. Renuncia ao amor de Ofélia, e o drama que se lhe coloca é combater o Mal ou fugir dele pela morte.
«Ser ou não ser, essa é que é a questão: Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna ou tomar armas contra um mar de escolhos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — Dormir: Nada mais; e dizer que pelo sono findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — Dormir. Dormir! Talvez sonhar — eis o problema, pois os sonhos que vieram nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida. […] Quem carregara suando o fardo da pesada vida se o medo do que depois da morte — o país ignorado de onde nunca ninguém voltou — não nos turbasse a mente e nos fizesse arcar c’o mal que temos em vez de voar para esse, que ignoramos?»
O mundo das sombras, ou da Luz? É esta a questão que se colocou a Hamelet e que se coloca a nós também.
O problema é que a nós, ao contrário de Hamelet, nos turba a mente…
Obs: Esta crónica foi escrita de memória porque só tinha quinze minutos para a sua edição pelo que ficam desde já os leitores de sobreaviso para qualquer lapso de informação, do qual, desde já me penitencio.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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