Confesso que há coisas que, por mais que tente, não consigo compreender. Toda a gente se deve lembrar quando o ministro Manuel Pinho, em 2006, declarou que estava aí o fim da crise. Pois… Já (quase) ninguém se lembra.

João Aristídes Duarte - «Política, Políticas...»Certo é que esse ministro, após ter sido demitido, por causa do episódio dos «corninhos» foi homenageado por empresários (who else?), em Ovar. Em Paços de Ferreira foi, posteriormente, inaugurada uma avenida com o seu nome.
Apesar de tudo isto, a crise, a tal, está aí em força, segundo dizem. Só que não é para todos, claro.
As classes média e média baixa lá vão ter que continuar a pagar a crise. Crise da responsabilidade, não da classe média ou da classe média baixa, mas sim da alta finança. Ou já toda a gente se esqueceu que isto tudo começou quando se iniciou a crise das hipotecas de alto risco (o chamado «subprime»)?
Não me esqueço, também, que o primeiro Governo de José Sócrates iniciou o seu mandato prometendo acabar com o deficit, que custou grandes sacrifícios às classes médias e aos portugueses com menores rendimentos (sempre os mesmos a pagar, já que os ricos, esses são intocáveis). E lembro-me bem que José Sócrates dizia que a culpa do deficit era dos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes.
De um momento para o outro, quando as contas públicas já estavam «direitas» aparece, como que por magia, esta crise.
Isto é eterno, bem o sabemos. Se o PSD está no Governo diz que tem que combater o deficit provocado pelos Governos do PS. Se o PS está no Governo diz que tem que se baixar o deficit que foi provocado pelos Governos do PSD. Lá serão os mesmos de sempre a pagar a crise. Nunca mais se sai disto. Temos crise para sempre. Como agora se calaram com isso, as culpas de um tão grande deficit (que, repito, tantos sacrifícios custou) só podem ser dos funcionários públicos ou dos trabalhadores por conta de outrem que receberam milhões e milhões de ajudas do Estado. Pode lá ser culpa dos gestores (que recebem milhões de prémios)?
Para os ricos há todas as benesses: apoios quando, por culpa deles e de mais ninguém, aconteceu a crise hipotecária que levou à falência dos bancos em muitos países. Aqui, em Portugal, preferiu seguir-se outro caminho: o Estado injectou (através da Caixa Geral de Depósitos), só no BPN; 4, 2 mil milhões de euros, para além das ajudas que o Governo declarou prestar às empresas em dificuldades. A privatização do BPN vai, portanto, dar prejuízo, como já afirmaram membros do próprio Governo. Muito bem… Nacionalizam-se as empresas que dão prejuízo e privatizam-se as que dão lucro. Para os portugueses da classe média e os menos favorecidos temos aí um PEC totalmente injusto. Será este o novo «socialismo» que José Afonso caricaturava numa canção cujo refrão rezava: «A palavra socialismo, como está hoje mudada, de colarinhos à Texas, muito bem aperaltada»? É que o partido que está no poder em Portugal, para quem não sabe ou já se esqueceu, chama-se Partido Socialista.
No entanto, apesar dessas ajudas, o desemprego tem aumentado de forma assustadora. Quem ficou com o dinheiro das ajudas é uma questão pertinente que tem que ser colocada.
Bem pode, agora, José Sócrates vir prometer mais 120.000 empregos, quando toda a gente sabe bem o que aconteceu à promessa dos 150.000 novos empregos prometidos no início do seu primeiro Governo.
Quero ser, aqui, politicamente incorrecto em mais dois assuntos. O primeiro refere-se a Paulo Portas que eu considero um verdadeiro «animal político» em campanha eleitoral, mas que não pode contar, nunca, com o meu voto porque se sobe na percentagem eleitoral adquire uma «pose» conhecida como «pose de Estado» que o leva a ser o mais demagógico dos políticos. Por exemplo, convém não esquecer que foi ele, enquanto ministro da Defesa que comprou os célebres (para não lhe chamar outra coisa) submarinos que contribuíram (e de que maneira) para agravar o deficit. No entanto, parece que isso é assunto tabu.
Já o Presidente da República (quase) nunca se pronuncia ou não se pode pronunciar sobre nada. Questionado, recentemente, sobre o aumento dos casos de violência entre alunos nas escolas ou de alunos e pais contra professores, respondeu que é preciso fazer algo (não disse o quê) para modificar isso. Não referiu, no entanto, que toda a produção legislativa do Governo (incluindo o célebre e, agora, contestado «Estatuto do Aluno») foi, por ele (como toda a legislação portuguesa) promulgado.
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
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