A ser verdade o que conta o jornal «Público» sobre o caso de um professor numa escola do concelho de Sintra que se suicidou por não aguentar mais os vexames a que era submetido pelos seus alunos, trata-se de um caso bastante chocante e a merecer uma análise politicamente incorrecta segundo o direito à opinião, consagrado na Constituição da República Portuguesa, que todo o cidadão português tem.

João Aristídes Duarte - «Memória, Memórias...»Como se sabe o Ministério da Educação desenvolveu uma campanha (essa sim, negra) contra os professores, no consulado de Maria de Lurdes Rodrigues, no anterior Governo.
Os professores eram os maiores malandros alguma vez encontrados em Portugal, não queriam trabalhar, só queriam faltar, não ensinavam nada, não queriam saber das «famílias» e se os alunos aprendiam alguma coisa (ao que se supõe) não seria por causa dos professores.
Essa campanha, de que foram responsáveis, entre outros, Valter Lemos, Jorge Pedreira (Secretários de Estado) e jornalistas e comentadores como Emídio Rangel e Miguel Sousa Tavares levou a opinião pública e, por arrastamento, os alunos, a achincalharem os professores, colocando todos no «mesmo saco» em defesa daquilo a que eles chamavam «as famílias».
Quer dizer, para esta gente, a escola inclui todos, sobretudo «as famílias», excepto os professores, que nada têm que mandar ou ser obedecidos.
Foram tantas, tantas as leis e decretos feitos por essa equipa do Ministério da Educação, quase todas, pretensamente, dirigidas a favor das «famílias» e contra os professores (o célebre Estatuto do Aluno é só um pequeno exemplo) e tanta a propaganda (sobretudo baseada na avaliação docente, facto que, pessoalmente, pouco me interessa) que a opinião pública passou a ver os professores como uma classe a abater.
Todo o “bicho careta” passou a opinar sobre a escola e os professores, sem que soubessem, na maior parte dos casos, do que estavam a falar.
Ainda há duas semanas foi noticiado que um aluno de 12 anos agrediu um professor com uma cadeira. Aliás, as agressões a professores, entre os próprios alunos e às auxiliares de acção educativa (agora chamadas em «modernês», assistentes operacionais) acontecem nas escolas portuguesas, sem que nada possa ser feito. Não significa isto que a indisciplina seja generalizada, mas é um caso que deve preocupar qualquer cidadão português. «A educação dá-se em casa» é uma máxima que hoje perdeu todo o sentido, dado que os pais se demitem de toda a função educativa e encarregam os professores dessa tarefa. Sabendo bem, como sabem, que o professor está «atado de pés e mãos», sem nenhuma autoridade. Perdeu-se o respeito pela figura do «mais velho» e, sobretudo pelo professor.
Ao contrário de Espanha, onde recentemente, na Comunidade Autonómica de Madrid, as agressões a professores foram consideradas como equivalentes a agressões à autoridade, em Portugal o que interessou (até há pouco tempo) foi dizer o pior dos professores para virar a opinião pública contra eles.
E para isso inventou-se tudo, até um iníquo (não encontro outra palavra para o definir) concurso de colocação de professores que levou docentes com quase 20 anos de serviço e quase 50 anos de idade a serem colocados em escolas a 120 Km de casa (e por 4 anos), como foi o meu caso. Facto que só acontece com esta profissão. Nenhum funcionário de nenhuma Repartição Pública é tratado desta maneira pelos poderes públicos. Haja um mínimo de respeito pela idade e pelo tempo de serviço!!! O concurso de colocação de professores do ano passado, em que professores com menos graduação foram colocados mais perto das suas residências do que outros mais graduados (só porque o foram em Agosto e os outros em Julho), foi das coisas mais vergonhosas que o Governo anterior praticou contra os professores, só para os desanimar. Este é só um exemplo do que tem sido feito em prol da desmotivação e desânimo dos professores.
Que, depois, surjam situações lamentáveis como a do suicídio do professor de Música (parece que os alunos já nem de Música gostam – do que gostarão?) não serão de admirar.
Quem apoiou, insistentemente, essa campanha contra os professores que ponha a mão na consciência e pense duas vezes se valerá a pena continuar a achincalhá-los
Nota: o Governo vai privatizar os CTT, uma Instituição que já vem do tempo da Monarquia (1520), tendo passado a Empresa Pública em 1969, antes do 25 de Abril de 1974. Nada escapa ao ataque feroz aos direitos dos cidadãos. Tenho a certeza que o serviço a prestar pelos privatizados CTT será pior e mais caro que é actualmente. E a Estação de Correios do Soito tem, portanto, os dias contados. Aos privados só interessa o lucro e não os serviços aos cidadãos.
«Memória, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

akapunkrural@gmail.com

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