AS MODERNICES – Portugal é um país cheio de modernices. E, depois, essa é uma coisa que «pega de estaca». Quando a gente se dá conta, já está tudo a seguir essas modernices, apresentadas como as coisas mais importantes que existem e ai de quem não as siga que é logo um «bota-de-elástico».

João Aristídes Duarte - «Memória, Memórias...»Já Rui Veloso, em 1983, no LP «Guardador de Margens» cantava um poema de Carlos Tê, intitulado «Dança dos Modernos», que terminava assim:

Você assim vai vencer
Se viver de prego a fundo
Você até vai deixar de ser
Cidadão do Terceiro Mundo

Esta mania de ser moderno e das modernices tem sido levada ao extremo, sobretudo nos meios de comunicação social. Surgem os maiores disparates, mas tudo continua na mesma, que o que interessa são as aparências.
Por isso aparecem os mídia (quando se deveria dizer media- sem acento porque é uma palavra latina), as imagens não editadas (quando deveriam ser as imagens não montadas – afinal a montagem – que em inglês é edition, existe na actividade cinematográfica e no vídeo), os clientes dos Hospitais e Centros de Saúde (antes eram os utentes), o público (como já ouvi na TV para significar povo) e outras coisas assim do género. Coisas perfeitamente dispensáveis que só demonstram na minha opinião, um subjugar a tudo o que vem de fora, que é, simplesmente, lamentável.
Tal como eu referi em comentários à minha última crónica neste blogue, os portugueses, a começar pelos «heróis» da selecção de futebol (tendo à cabeça o sr. Queiroz) não valorizam o que é nosso.
Há uns tempos apareceram os colaboradores (já não há trabalhadores, funcionários ou empregados, mas sim colaboradores). Esta é demais para mim, uma vez que eu me considero um colaborador deste blogue ou do jornal «Nova Guarda» (para o qual escrevo há 12 anos), mas sei bem distinguir entre a colaboração e um emprego ou trabalho, uma vez que como colaborador não aufiro qualquer remuneração. Será isso que os tais que chamam colaboradores aos seus empregados, também, queriam? Não lhes pagar nenhum ordenado e tê-los sempre subjugados?
Agora a última moda são as agências de rating. Confesso que não sei bem o que isso é. Sei é que esse papão das agências de rating é usado pelo Governo e por economistas que lhe são muito próximos para pedir mais sacrifícios aos mesmos de sempre. Os banqueiros, esses, continuam a ir à televisão apresentar os fabulosos lucros dos seus bancos, quando ainda há bem pouco tempo, pediam ajuda ao Estado para se salvarem (há até um bom vídeo no youtube, do programa de TV «Os Contemporâneos» intitulado «Salvem os Ricos» que faz ironia com isso). Logo, não são esses que irão pagar a crise, apesar de terem sido eles que a provocaram.
Outra modernice que anda por aí é a de considerar o regime do Estado Novo (que vigorou até ao 25 de Abril de 1974) como apenas autoritário e não ditatorial. Já não são só os saudosistas desse regime (que os há) que dizem isso: António Barreto, considerado um grande cientista social (mais outro nome moderno), numa recente entrevista ao «Expresso» referiu que a maioria das pessoas que pretendem comemorar os 100 anos da implantação da República, em Portugal, têm que dizer mal do regime do Estado Novo e ele acha que não devem fazer isso. António Barreto esteve exilado na Suiça, entre 1963 e 1974, mas, entretanto, aburguesou-se. Como já se safou, toca a dizer que já não é necessário dizer mal do regime do Estado Novo.
Neste país há jornalistas, então, que não percebem nada de nada. António Manuel Ribeiro (líder dos UHF) contou-me uma vez que uma jornalista o tinha entrevistado quando lançou um disco chamado «Sierra Maestra» e lhe perguntou se essa serra não era aquela, em Espanha, onde havia muita neve. E tem esta gente tempo de antena…
Já esse fenómeno do bullying (violência física e psicológica praticado entre alunos) me deixa mais preocupado como cidadão e como professor. Nunca me lembro de isso existir, enquanto eu fui criança ou adolescente. Portanto é outra coisa moderna. Eu, até, era daqueles alunos que poderia sofrer com esse fenómeno, uma vez que era um pouco inibido e havia algumas coisas que eu não tinha em comum com os meus companheiros de escola, apesar de viver numa aldeia: não tinha vacas ou outros animais, nem terrenos para cultivar, os meus pais não estavam ligados à agricultura.
Parece que quem pratica essas agressões não gosta que os seus colegas (mais uma modernice – no meu tempo de escola éramos, todos, companheiros) sejam diferentes.
Como professor sei bem que os docentes não têm qualquer autoridade para poder separar alunos que praticarem essas agressões. Ainda pode vir o pai de algum deles tirar satisfações com o professor. Safa!! Safa!! Como cidadão, acho essa situação tão lamentável, que nem tenho palavras para a descrever.
«Memória, Memórias…», opinião de João Aristides Duarte

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