Afinal faltará liberdade de expressão em Portugal ou será este assunto mera arma de arremesso político, apenas tema de conversa e nada mais? Tema que se esquece, logo que outro escândalo ou desgraça apareça, como a tragédia da Madeira fez esquecer o Haiti, como a «face oculta» fez esquecer o Freeport e como as restantes novelas do dia a dia, da pedofilia à Maddie, do «apito dourado» ao «Vale e Azevedo» fizeram esquecer outras tantas comédias.

Peanuts

António Cabanas - «Terras do Lince»Comédias para nos entreter e que têm o condão de nos distrair da crise económica e da crise de confiança em que o país se afoga cada vez mais; mote para todo o tipo de artigos, entrevistas e comentários na comunicação social, que ajudam a esgotar jornais e prender espectadores a rádios e televisões.
Sempre achei o actual primeiro-ministro um homem de pulso, um osso duro de roer, a roçar até o ditador (se calhar já fazia falta!). Mas nunca o supus capaz de elaborar um plano para silenciar a comunicação social! Até porque, toda a gente sabe que não têm estudos para isso! Parece que lhe falta o diploma! Além do mais, a nossa comunicação social é muito poderosa, arrogante e intocável.
Seria preciso algum plano engendrado lá fora!
Mas se o plano se resumia a cortar o pio à jornalista, ex-deputada do CDS, Manuela Moura Guedes (MMG), então, mesmo a um não diplomado, não seria difícil fazê-lo. Bastava tirar de lá o chefe/marido e logo ela iria atrás, aliás muita gente disse que a MMG só era pivot da TVI por causa do chefe.
Salvo melhor opinião, a MMG não era propriamente das mais dotadas e muito menos isentas e quando assim é o resultado só pode ser medíocre: um jornalismo de baixo nível, com falta de isenção e rigor, mas arrogante.
A mim, enojava-me aquele tipo de jornal. Não por a senhora ter inclinação política que também se nota em outros profissionais, mas pela falta de ética e até de educação.
Toda a gente sabe que a comunicação social de âmbito nacional está nas mãos dos grandes grupos económicos, para onde passou nos últimos anos. É a eles que obedece, pois são eles que pagam. Pelas mesmas razões, raramente se ouve um jornalista denunciá-los ou investigar os seus negócios como o fazem para outras classes.
Acho que os jornalistas são pressionados sim! Isso nota-se-lhe. Nota-se que alguns jornalistas são coagidos a denegrir a imagem de certos políticos, sobretudo aos que estejam no poder! Dá sempre jeito derrubá-los!
Coitadinhos dos jornalistas! Sentem-se pressionados! Até devem andar a necessitar de apoio psicológico! Onde é que já se viu chamar «jornal travestido» ao pasquim da MMG!? E o bastonário da ordem dos advogados que lhe disse das boas com todo o país a assistir e bater palmas! Jornalista sofre! São muitas as pressões, lá isso é verdade!
Mas parece que as pressões não surtem efeito, os jornalistas publicam tudo o que fizer fumaça, até os segredos da justiça, a troco não sei de que obscuros interesses. Nem a suposta falta de liberdade os impede de publicar informações, quase sempre truncadas, obtidas de forma fraudulenta. Por certo serão mais uma vez, pressões!
Claro que às oposições dá jeito estar do lado dos «pobres» jornalistas. Algumas oposições poderão chegar ao poder e mudarão então de opinião; os que agora o detêm depressa já esqueceram o que diziam e faziam quando estavam na oposição.
Mal vai um país quando tudo gira à volta da comunicação social, quando se faz ou deixa de fazer porque a comunicação social se interessou por determinado assunto. E pior ainda quando o tema é a própria comunicação social. Quando se gastam horas e horas de parlamento a entreter o país com temas de lana caprina.
Aplaudo por isso a resposta dada pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (PSTJ) a Judite de Sousa, quando esta perguntou se o PSTJ não achava a liberdade de expressão o bem mais precioso de uma sociedade democrática. Ela estaria à espera de quê? Que ele dissesse que sim senhora, que a comunicação social nacional com as suas periódicas novelas sem epílogo é que são o âmago da vida democrática? Que não! – disse o PSTJ, – nada disso, o bem mais precioso a preservar é e continuará a ser a vida!
O resto são peanuts!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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