As palavras têm, por vezes, um poder que ignoramos. Existem fórmulas, nomes, frases, orações, que citamos e recitamos em ocasiões especiais, sobretudo em cerimónias, laicas ou religiosas.

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaOutras palavras encontram-se carregadas de superstição, atribuimos-lhes um simbolismo mágico, que nos leva a evitá-las ou a substituí-las por outras (os eufemismos). Evitamos dizer «cancro» e dizemos «doença prolongada», «doença incurável», etc. Receamos o poder maléfico das próprias palavras. O poder da palavra foi sempre tal que os oradores e a oratória ocuparam em quase todas as civilizações um lugar destacado. Mas o poder das palavras e dos nomes não ficou limitado às sociedades primitivas ou antigas. Continuamos a dizer «Não invocarás o nome de Deus em vão», ou «Em nome da Lei». Por sua vez, os nomes das pessoas eram (e são) frequentemente reservados apenas para os amigos. Tratam-se os familiares e amigos pelo nome próprio, pelo diminutivo ou mesmo pela alcunha mas, cerimoniosamente, tratamos os outros pelo apelido. O nome próprio é uma «dádiva» reservada apenas aos íntimos.
Os Gregos, profundamente religiosos mas também alegremente imaginativos, atribuíam nomes curiosos aos seus filhos, quase sempre com significados de grande beleza, como por exemplo Teófilo (Theo = Deus + filos = amigo).
Em contrapartida, os Romanos eram muito mais pragmáticos. Os seus nomes derivavam frequentemente da actividade agro-pastoril, como Ovídio (derivado de ovelha). A sua falta de imaginação chegava por vezes ao ponto de os pais darem aos filhos o nome da ordem de nascimento: Primus, Secundus, etc. Um dos imperadores romanos chamou-se Septimus Severus. E as alcunhas também não revelam maior criatividade: Cícero, que significa «feijão frade» ou «chícharo», era a alcunha do grande escritor latino, cujo nome era Marco Túlio. A razão de tal alcunha devia-se a uma verruga que ele tinha no nariz. Ainda outro exemplo: o nome completo de Júlio César era Gaius (Caio, nome próprio), Julius (Júlio, apelido de uma nobre família romana, a gens Julia) Caesar (César, alcunha que significa «aquele que nasceu de um corte»). Na verdade, Júlio César nasceu através da operação que, muito mais tarde e em sua homenagem, se chamaria cesariana.
Os povos da Europa Ocidental, herdeiros como foram da civilização greco-romana, receberam influências das duas culturas. Temos nomes próprios de origem grega (Filomena, Catarina, Irene), outros de origem romana (Pedro, Paulo, Mário). E, claro, como não podia deixar de ser, uma terceira fonte onomástica igualmente importante foi a civilização judaica (Maria, José, Ana). Com o passar dos séculos e as sucessivas aculturações, surgiram entre nós nomes de origem germânica, (Fernando, Eurico, Rodrigo e, imagine-se, Adérito) ou árabe (Ismael, Fátima). E, mais modernamente, outros de influência russa (Sónia, Natacha, Tatiana), francesa (Odete, Suzete, Bernardete) e italiana (Bruno, Silvana, Sandra).
Quanto aos nossos apelidos, boa parte deles são, à maneira romana, provenientes das actividades agrícola e pecuária – Carvalho, Nogueira, Pereira, Oliveira, Silva, Campos, Carneiro, Leitão, Cabrita, Coelho, etc. Outros são patronímicos, isto é, derivados do nome próprio do pai – Henriques (filho de Henrique), Gonçalves (de Gonçalo), Nunes (de Nuno), Fernandes (de Fernando ou Fernão), Bernardes (de Bernardo), Martins (de Martim), Lopes (de Lopo), Esteves (de Estêvão), Peres (de Pero, ou Pedro), etc.
Aliás, os apelidos patronímicos são comuns noutras línguas. Em inglês terminam geralmente em son (filho), como Johnson (filho de John), Stevenson (filho de Steve), etc. Nas línguas nórdicas, em vez de son, utiliza-se sen (Christiansen, filho de Christian, ou Khristoffersen, filho de Khristoffer). Por sua vez, na Escócia, o patronímio é indicado pelo prefixo Mac ou Mc, como em MacDonald (filho de Donald) ou MacArthur (filho de Arthur). Na Irlanda, o prefixo patronímico é O’ – O’Neill (filho de Neill), ou O’Brien (filho de Brien).
Quando nasce uma criança, um dos primeiros problemas a resolver é a escolha do nome. Frequentemente, a escolha fica simplificada porque se quer homenagear o avô Francisco ou a tia Luísa. Outras vezes, as coisas complicam-se (para a inocente criancinha), quando os pais ou os padrinhos, numa infeliz demonstração de imaginação e exotismo, resolvem baptizar os coitadinhos com estranhíssimos nomes que eles arrastarão consigo a vida inteira, como Epaminondas, Reprimícia, Aldegundes, Temístocles, Pancrácio, Segismundo, etc. E, no entanto, há nomes tão bonitos para escolher – Irene, por exemplo, que significa, em grego, paz; ou Beatriz («aquela que faz alguém feliz»), ou Sara (em grego, «princesa»).
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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