José Pinto Peixoto foi um dos mais destacados geofísicos e meteorologistas portugueses. Mas este cientista de renome, que viveu radicado em Lisboa, quis legar à sua terra de nascimento uma extensa e cuidada monografia, o que fez em cumprimento de um dever de homem citadino que nunca esqueceu as suas origens humildes.

«Miuzela a Terra e as Gentes» é uma monografia completa, dedicada a uma terra pertencente a concelho de Almeida mas com imensas afinidades com o concelho do Sabugal.
Depois de uma breve justificação e da referência às memórias da infância, que lhe ficaram para sempre gravadas, José Pinto Peixoto entra na história da região. Escreve acerca das origens da Miuzela, os povos antigos que a habitaram e os vestígios que deixaram. Também aborda as questões geográficas, e aventura-se pela colecta de expressões, adágios e provérbios populares.
No que toca ao registo histórico, a povoação viu ali nascer e viver gente importante e foi palco de guerras e das consequentes devastações, com manifesto prejuízo para as populações, alvo das mais variadas atrocidades. Neste particular, assumem importância as invasões francesas, sobretudo a terceira, onde a Miuzela foi saqueada, quando as tropas de Massena recuavam, acossadas pela tropa anglo-lusa.
Mas o mais relevante da monografia são as referências aos usos e costumes, quase todos hoje perdidos, mas que constituem um importante património da aldeia. Ligado a cada ciclo anual, estavam as tradições e, com elas, os sabores gastronómicos. Festas de nomeada, com o Natal e a Páscoa estavam ligadas a um conjunto de iguarias que eram preparadas com todo o rigor, seguindo ementas antigas que passavam de mães para filhas. O mesmo sucedia no referente aos grandes trabalhos colectivos, como a ceifa e as malhas, que eram momentos de esforço, compensado com boas e suculentas refeições.
Pinto Peixoto, descreve com especial denodo a importância dos enchidos na alimentação popular e, especialmente, a sua peça de excelência, o bucho, comido pelas famílias reunidas no Domingo Gordo. Fala-nos do jantar do bucho, que noutro tempo correspondia ao que hoje chamamos almoço. De facto o almoço comia-se pela manhã, sendo o jantar ao meio do dia e a ceia a refeição da noite.
«Era um jantar, quase tão importante, como o do dia da matança, mas mais elaborado e de mais cerimónia. Era uma festa!
O jantar do bucho ocorria, em geral, antes de entrar na Quaresma, por volta do Entrudo, porque a partir daí vinham os jejuns e as abstinências e, já, não se podia comer carne! Muitas vezes era no “Domingo Gordo”.
O jantar constituía um pretexto para se reunirem as famílias de parentes, e de amigos, mais queridos, num convívio são, afectivo e fraterno.
O bucho é, talvez, o enchido mais saboroso da Miuzela e é, por isso, o melhor das redondezas. É um manjar delicioso.
O bucho é o estômago do porco, cheio com ossos especiais, com cartilagens, orelheira e o rabo, depois de terem estado dois ou três dias em vinha de alhos. Mas no tempero é que está o segredo. O vinho, para a vinha de alhos, tem de ser de boa qualidade. E o pimento (colorau) não há-de ser só do doce, que tem que se lhe juntar do “queimoso”, com muito alho, bem migado, um pouco de sal, mais alguns “cheiros”, e tudo fica bem de molho, durante alguns dias.
Mas muito do sucesso, além da qualidade da matéria prima e “dos temperos”, vai da maneira de temperar e de encher o bucho. Os ossos têm de ser entremeados com outros bocados do recheio, mais suculentos, em camadas bem ordenadas. E vai-se calcando, sempre, porque depois, no fim, é mais fácil de aconchegar o bucho e espremê-lo bem, para não deixar lá dentro bolhas de ar! E, por fim, há-de ser muito bem atado e com segurança.
Depois de bem limpo (por fora), fica dependurado, a escorrer umas horas e só depois é que vai para o fumeiro, onde continua a pingar durante uns dias, até se começar a fumar e a ficar seco, bem vermelho e lustroso.
Depois, é a delícia, que se sabe: é queimoso, sem ser picante; é gorduroso, sem enjoar; é apetitoso, sem enfartar; é saboroso, sem ser indigesto; é gostoso, sem cansar. Até a pele do bucho, depois de cozida e bem torrada, constitui um manjar de eleição.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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