No tempo das invasões, em que a maior parte das perdas militares do lado francês resultou das revoltas e acções de retaliação do povo confrangido e humilhado, dá-se uma aventura de luta abnegada em favor da libertação do solo pátrio, onde a par dos actos de heroicidade, próprios da guerra, se desenrolam histórias de paixão amorosa.

José Marques Vidal, juiz conselheiro do Supremo Tribunal Administrativo, revelou-se agora como romancista, depois de uma vida inteira embrenhado no estudo e na publicação de textos de carácter jurídico. Deu à estampa o livro «O Amor em Armas», editado pela Oficina do Livro, o qual tem por cenário as vastas terras beiroas, de Celorico da Beira ao Caramulo, e as terras, ora pedregosas ora úberes, entre os rios Águeda, Marnel e Vouga.
João do Préstimo, militar experimentado que marchava para França integrado na Legião Portuguesa, comandada pelo Marquês de Alorna, decidiu desertar quando a caravana passou em Porto da Carne e se preparava para subir para a Guarda. Na fuga acabou por socorrer uma jovem, que era órfã e vivia só, quando dois facínoras se preparavam para dela abusarem. A moça acabaria por o acompanhar no seu retorno à terra natal, nas margens do rio Vouga, e dali nasceu uma paixão que deu frutos.
Pelo caminho receberam prestáveis ajudas, como a do lavrador Augusto Frias, de Barrelas, que lhes facultou aboletamento e lhes deu por guias dois criados que os conduziram a local seguro. E foi assim que Margarida e João acabaram a saborear um belo petisco confeccionado com os peixes capturados no Vouga e seus afluentes.
«Diogo e Gabriel, os criados do Frias, montados em éguas e de reiuna a tiracolo, deixaram-nos na taberna da Vesga, assim nomeada por fazer honra à dona de olhos enviesados, afamada por nela se comerem as melhores trutas do rio, situava-se ao lado da povoação de Vouguinha e já perto da ponte.
Banquetearam-se com trutas de escabeche, pintalgadas de ouro sobre a pele de cor cinza-clara e apaladadas pelo azeite, vinagre e cebola que lhe faziam o sabor de três estalos, na ideia de poupar as viandas com que o Frias lhes atafulhara os alforges.»
Contada a aventura de João do Préstimo o romance revela um novo herói: o jovem Daniel Pinto, filho de lavrador abastado, estudante de Medicina em Coimbra, que integrou o Batalhão Académico e deu em chefe de uma guerrilha que dava combate aos franceses.
Por entre a descrição das movimentações dos guerrilheiros e da soldadesca e os enredos amorosos, o livro conduz-nos sempre aos petiscos que se saboreavam à mesa, com maior ou menor denodo. Disso é exemplo a descrição do jantar servido ao general Franceschy, do exército de Napoleão, pelos frades franciscanos: «Uma malga de caldo, feito com os produtos da horta do convento, e uns roubacos fritos, pescados nas águas turvas do rio, acompanhados por um palhete da pequena vinha da cerca guardado para as ocasiões solenes».
Noutro ponto refere-se a visita fugaz de Daniel Pinto à Vila de Vouga, a casa do administrador Fontes, apanhado «a comer o mata-bicho, uma fritada de ovos com presunto, a quem se juntou por obséquio na pitança».
Também se revela o belo petisco degustado sofregamente por dois frades, os irmãos António e Bernardo, sendo o primeiro a contar a façanha: «arrastei-o até Vouga, à tasca do Miranda, onde tinha mandado preparar um coelhinho à caçador, já com batatinhas novas e aloiradas por cebola quanto abonde na caçarola de barro. Passámo-lo ao estreito em três tempos, a fazê-lo escorregar com um palhete de estalo que o vendeiro guarda para os amigos de palato apurado».
O tempo era de guerra e de fortes privações, mas, ainda assim, por entre as adversidades dos combates e os saques violentos dos invasores, tratava-se do estômago.
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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