A notícia de um novo centro de reprodução de lince em cativeiro que está a ser construído no nordeste da Extremadura espanhola, leva-nos a retomar o tema da crónica do início do ano, «Que 2010 nos traga o Lince». Esta nova estrutura está quase pronta em Zarza de Granadilla, junto à barragem de Gabriel y Galan, prevendo-se a sua conclusão antes do Verão. Os linces irão de Doñana, tal como os que foram para Silves, mas só depois de adquirido equipamento e contratado pessoal para que o centro possa funcionar, o que se prevê para o final de 2011.

Lince Ibérico da Serra da Malcata

António Cabanas - «Terras do Lince»Se tudo correr bem, o centro disporá de Linces para libertar lá para 2014, 2015, e visto serem a Sierra de Gata e as Hurdes tradicionalmente território do felino, poderão ser escolhidas para a reintrodução, vindo a reforçar a população da Serra da Malcata.
Entretanto, quer em Portugal quer em Espanha, os técnicos estudam a espécie, os seus competidores e as suas presas. O ICNB prepara planos de acção onde se inclui o diagnóstico das doenças susceptíveis de transmissão ao lince. É que ao contrário do que se pode pensar, a suposta vida saudável dos animais, em absoluta liberdade, não os isenta de patologias e viroses.
Um dos linces que mais contribuiu para a criação em cativeiro morreu no passado dia 1 de Fevereiro na Sierra Morena, com dez anos de idade, acometido de insuficiência renal crónica. Entre 2005 e 2008 Garfio – assim se chamava o felino – foi pai de onze crias. Dizem os técnicos que dos 72 animais do programa de criação, 25 sofrem do mesmo mal, o que motivou os especialistas da nefrologia espanhola e internacional a procurar um tratamento eficaz para a insuficiência renal do gato mais ameaçado do mundo.
Duas biólogas espanholas, da Estación Biológica de Doñana, estiveram esta semana entre nós para recolherem amostras de lince com vista ao estudo genético das suas populações. Duas peles em Meimoa e Meimão, um lince embalsamado no Museu de Penamacor e outro no Porto oriundo também de Penamacor, foram para já os espécimes objecto da recolha.
Outros linces embalsamados e peles haverá certamente na nossa região e na região vizinha espanhola que possam contribuir com amostras de tecido (geralmente um pedaço de unha) para alargamento da base de recolha. Quanto mais indivíduos forem estudados maior fiabilidade terá o estudo. Aqui deixamos o apelo a quem possuir material biológico, ou saiba da sua existência para que informe o Capeia Arraiana que assim também contribui para a preservação do Gato Real. Recorda-se que foi a evolução dos estudos de biologia que permitiram o sucesso recente da criação em cativeiro, coisa quase impossível anos atrás.
Estas notícias contrastam com a falta delas na Malcata, onde o ICNB, não possui sequer um biólogo que prepare o terreno, para que na hora de libertar animais existam as melhores condições, que estude as populações de coelho e os competidores, que promova a reintrodução de presas.
Esta carência deixa-nos deveras preocupados. Sabemos das dificuldades financeiras do ICNB e que os próximos anos não prometem melhoras nessa matéria, mas também sabemos que o Lince é assunto prioritário da conservação da natureza em Portugal. Gostaríamos pois que o ICNB assumisse as suas responsabilidades na Malcata, dotando-a de técnicos capazes de levar por diante as tarefas que se impõem. Se isso acontecer estará cumprido o voto formulado, para este ano, no anterior artigo.
As duas autarquias envolvidas estão dispostas a ajudar. Não é altura de cruzar os braços.
A Malcata possui a maior área natural, sem população humana, a maior área do Estado, que somada à da Portucel e à de dois ou três latifúndios, dão a esta serra as melhores condições de gestão. Fizeram-se nela investimentos de monta, na instalação de marouços, pastagens e cercados, e em estudos da flora e dos habitats em geral. Ao contrário de outras zonas potenciais de reintrodução de Lince, a Malcata quase não tem zonas de caça, reduzindo ao mínimo o conflito e os factores de risco. Além disso, o último exemplar capturado em Portugal foi na Malcata em 1992.
O maior problema poderá ser a reduzida população de coelhos, mas já vão aparecendo outras presas como o corso, o esquilo e o muflão. De resto ainda vamos a tempo de reintroduzir coelhos, presa preferida do Lince.
Que 2010 nos traga o Lince!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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