Os colaboradores deste Blogue, Adérito Tavares e António Cabanas, lançaram-nos como que um repto: as relações entre nós portugueses e esses vizinhos tantas vezes ignorados, que são os espanhóis. Como quase todos os que escrevemos no Capeia Arraiana, somos gente da Raia, porque não aceitá-lo?

António EmidioO nosso encaixe físico, esta vizinhança, faz com que tenhamos sempre os olhos postos uns nos outros. Assim foi ao longo da história. Neste post, não irei falar sobre batalhas ganhas e batalhas perdidas, nem tão pouco em nacionalismos serôdios. Falarei nos períodos de amuos e boas relações entre os dois povos.
O Iberismo é uma tendência política, espanhola, de integrar Portugal num todo ibérico. Esse Iberismo é conseguido no reinado de Filipe II . Alguns historiadores afirmam, que até essa data, Portugal se integrava sem muitos e grandes problemas numa Espanha medieval, renascentista e barroca. Era uma «pequena Espanha», mas com o surgir de novos pensamentos e correntes políticas, como o centralismo do poder, essa situação foi radicalmente posta de parte pelos portugueses a partir de 1640.
Depois desta data, cada um seguiu caminhos separados, o que deu origem a uma secular história de antagonismos. Portugal vive então de costas voltadas para Espanha, sendo assim a melhor maneira de defender a sua independência.
Só no século XIX, Portugal e Espanha têm uma postura diferente. Surge então uma espécie de Iberismo, mas este de carácter positivo, fruto das Invasões Francesas e da Guerra Peninsular. Ambas contribuíram para uma revolução ideológica, que foi o Liberalismo. Mas depressa este Iberismo deu lugar a um novo voltar de costas, fracasso da Primeira República Espanhola e proclamação da República Portuguesa. Nessa altura, em Portugal, era considerado anti-patriotismo e traição, falar em Iberismo.
Revolução de 28 de Maio de 1926, a partir daí, com toda uma séria de peripécias entre Salazar e Franco, durante a Guerra Civil Espanhola, em que Salazar apoia Franco, porque deseja uma convergência de regimes, e abomina a República, vendo nesta, ou seja, na vitória dela, o aparecimento de um Iberismo Revolucionário que levaria à queda do seu regime, o Estado Novo. Mas não esqueçamos que franco, e a Falange, sempre mantiveram, muito secretamente, uma vontade de anexar Portugal.
Vem depois a Segunda Guerra Mundial, Franco apoia os países do Eixo, chega a encontrar-se com Hitler, deseja participar na guerra. Salazar tudo faz para o dissuadir, sabe que isso traria uma invasão do território nacional pelos exércitos de Espanha e da Alemanha. Vários condicionalismos, entre eles – Hitler não aceitar uma série de condições de Franco – fazem com que a Espanha se mantenha fora da guerra.
Seguem-se anos de silêncio e calma, não há problemas. A Espanha, pela mão de alguns tecnocratas católicos da Opus Dei, entra numa liberalização económica, a partir dos anos sessenta. Liberalização económica, não política, a ideologia (ditadura) sempre esteve nas mãos de Franco. Portugal mantém-se inalterável, tanto política como economicamente. O que faziam os povos da fronteira, o que fazíamos nós, raianos, por estes lados? Contrabando, fazer compras nas povoações espanholas de fronteira, sempre com receio às autoridades, casamentos entre espanholas e portugueses, e vice-versa, idas e vindas entre caminhos e veredas, havia portugueses que tinham pequenas terras agrícolas em Espanha. As populações davam-se bem, apesar dos nacionalismos e proteccionismos dos seus governantes.
Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal, começa a evolução para a democracia em Espanha (A Transição) . Franco ainda pensa em invadir Portugal, caso o Partido Comunista Português se instale no governo. Começa uma mudança ideológica que se reflectiu em todos os sectores.
Em 1981 há uma tentativa de golpe de estado em Espanha, feito pelos militares saudosistas do Franquismo. A concretizar-se, seria mais um período de tensão entre os dois países e muitos democratas espanhóis se refugiariam em Portugal. Falei com um, que andou pela serra á procura de caminhos que o trouxessem a Portugal, não só a ele, mas a muitos outros que tinham contactado com ele. As fronteiras entre os dois países fechariam, e as perseguições políticas começariam.
Vem 1986, entrada conjunta de Portugal e Espanha na União Europeia, então CEE.
Chegou-se ao fim da história nas relações entre os dois países? Ainda não. A história caminha para diante sem deixar para atrás o passado. Vivemos presentemente num Iberismo positivo, isto não quer dizer que um dia volte um Iberismo negativo.
Num dos artigos que escrevi para este Blogue, intitulado «Que Federação Ibérica?», disse que houve, e há, autarcas do Concelho que fizeram e fazem um grande esforço no intuito de uma aproximação cultural e económica com as populações do outro lado da fronteira. A história concelhia lembrar-se-á deles com fomentadores de um Iberismo são, e talvez precursores de uma Confederação Ibérica de Nacionalidades. São símbolos de paz e progresso.
Uma pequena história para terminar:
Quando Franco entra em Madrid, e se proclama vencedor da Guerra Civil, num clube, aqui na então Vila do Sabugal, estava toda a gente com atenção ao rádio que transmitia o acontecimento. Possivelmente o Rádio Clube Português, que durante a guerra transmitia programas de apoio às tropas franquistas. Ouve-se então uma voz clamar bem alto:
– Legionários!!! Isto ouve-se em sentido!!!
Foi o comandante da Legião Portuguesa da Vila que lançou esta ordem para os legionários presentes, tal era o fervor ideológico!
Escusado será dizer que toda a gente se pôs de pé e em sentido, legionários e não legionários, estes últimos com medo, não fosse o diabo tecê-las…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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