Num destes domingos de Janeiro, almocei no restaurante Trutalcôa, um dos muitos restaurantes do nosso Concelho. Se menciono o nome, é pela razão da envolvência que caracterizou o almoço, nada tem a ver com publicidade.

António Emídio - Passeio pelo CôaNevava intensamente, o frio era glacial, como o restaurante é panorâmico, e tem paredes em vidro, via-se a neve cair e rodopiar com a força do vento. Ainda era cedo, estavam só dois comensais, eu e a minha mulher. Pedimos um arroz de tomate, com truta frita, e um bom vinho. Estava tudo divinal.
Como é natural, conversamos enquanto decorria a refeição. Houve uma altura em que me silenciei, e pensei na experiência inesquecível que seria para muita gente, especialmente turistas, estar sentados num bom restaurante, diante de uma bela refeição, e ver cair a neve por sobre aquela bonita paisagem, já serrana, onde ao fundo se vê um grande lago, no meio de um prado verde, ladeado por esse rio maravilhoso que é o Côa.
Lembrei-me dos nossos antigos, algumas vezes se diz que eram «atrasados», mas esses estiveram muito mais próximo do que nós, da sustentabilidade ambiental, não destruíram o meio ambiente. O seu saber dizia-lhes que ocupavam uma casa comum, que era a Terra, e com ela formavam uma comunidade cujo destino dependia deles.
Temos mais bens materiais do que eles tinham, mas perdemos bens humanos, morais e espirituais que os caracterizavam. Tinham mais sentido de justiça, de igualdade, e mais sensibilidade social. Não eram individualistas, viviam em comunidade, havia amor à família e ao próximo.
Perdemos muito da herança espiritual, das nossas melhores tradições humanas e culturais. Tudo se perdeu quando entre nós se instalou uma ideologia político/económica que quer o homem vazio de espiritualidade e cultura, mas repleto de ciência e tecnologia. E não me venham com essas histórias que antigamente não havia pão, roupa e casa de banho, porque se o homem fosse um ser equilibrado, tinha pão, roupa, casas de banho, cultura, valores ciência e tecnologia.
Querido leitor(a), cozinhavam assim tão mal as mães e esposas portuguesas, para termos de importar comida de plástico americana, e outras «iguarias gastronómicas»?
Será possível que para acabar com algumas das nossas tradições gastronómicas, fosse criada uma desapiedada polícia?
Politicamente correctos, e apologetas do sistema, vou escrever uma heresia: tudo isto se deve ao termos copiado o «american way of live». E como se isto não bastasse, obedecer cegamente a Bruxelas. Tudo gente e instituições que nunca souberam o que foi a nossa cultura, os nossos valores e as nossas tradições.
Nesse Domingo, estive numa das maravilhas naturais do Concelho, e comi uma bela refeição tradicional, senti o que é a Sabugalidade.
P.S. – A Sabugalidade representa para mim, todo o Concelho do Sabugal.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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