Quando entrei pela primeira vez na Faculdade de Letras de Lisboa, nos anos 60, ia acompanhado de um amigo que frequentava Direito, ali mesmo em frente. Ao ver tantas raparigas, exclamou: «Estou no meu ambiente! Vou mudar de curso.»

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaClaro que estava a brincar. Até porque não era preciso mudar de curso para ter acesso ao bar da Faculdade de Letras, sempre cheio da «malta» de Direito. Eles «refugiavam-se» ali porque a sua Faculdade era «um deserto»: só rapazes! Nessa altura, em Portugal, ainda se contavam quase pelos dedos as raparigas que frequentavam Direito, ou Medicina, ou Engenharia. Havia cursos que a sociedade «achava» mais «apropriados» às meninas: Letras, Enfermagem, Magistério Primário, e poucos mais. Em quarenta anos, quantas coisas mudaram: hoje, na Faculdade de Direito de Lisboa, o meu amigo sentir-se-ia como peixe na água: é que a situação inverteu-se e agora são muito mais as raparigas que os rapazes.
Vem isto a propósito de uma mulher de excepção, uma das primeiras a frequentar a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e a licenciar-se em Medicina: Carolina Beatriz Ângelo, que foi casada com o dr. Januário Barreto, casapiano ilustre, médico-cirurgião e desportista.
E vem também a propósito do início da construção, em Loures, do Hospital Carolina Beatriz Ângelo. A atribuição do nome desta pioneira da luta pelos direitos cívicos e políticos da mulher a uma unidade hospitalar constitui um acto de «justiça histórica».
Carolina Beatriz Ângelo nasceu em 1877, na cidade da Guarda. Frequentou o Liceu desta cidade, onde se revelou uma aluna brilhante. Matriculou-se depois na Escola Politécnica de Lisboa, de onde transitou para a Escola Médico-Cirúrgica. Aí viria a conhecer Januário Barreto, com o qual se casou no próprio ano da formatura, em 1902.
A Escola Médica de Lisboa foi a antecessora da Faculdade de Medicina, que apenas surgiria com a criação da Universidade, pela República. Na transição do século, era uma instituição prestigiada e dinâmica, onde leccionavam ou tinham leccionado grandes homens de ciência, como Sousa Martins, Câmara Pestana, Miguel Bombarda e Ricardo Jorge. Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto tiveram ali como professores, entre outros, Ricardo Jorge, Alfredo da Costa, Miguel Bombarda e Curry Cabral. Num tempo ainda tão conservador em termos socioprofissionais, a jovem Carolina era, como se disse, uma das raras alunas de Medicina. Viria a ser, aliás, a primeira a especializar-se em cirurgia, em Portugal.
Carolina Beatriz ÂngeloJanuário Gonçalves Barreto Duarte, com quem Carolina Beatriz Ângelo casou, era também originário das terras difíceis e pedregosas da Beira: nasceu na Aldeia do Souto (Covilhã), precisamente no mesmo ano da futura mulher, 1877. Tendo ficado órfão com apenas 9 anos, foi acolhido na Real Casa Pia de Lisboa em 30 de Junho de 1886. Aqui se tornaria um aluno excepcional, na dupla vertente escolar e desportiva. Pioneiro do futebol na Casa Pia (e o mesmo é dizer no País), enquanto prosseguia os estudos na Escola Médica, como bolseiro, Januário Barreto funda e anima um Grupo Escolar de Futebol, de que fazem parte, entre outros, os artistas casapianos António do Couto, Pedro Guedes e Francisco dos Santos. Encontraremos também Januário Barreto como fundador e dinamizador do Sport Lisboa, agremiação desportiva que constitui uma das raízes do actual Sport Lisboa e Benfica. O seu perfil de médico-desportista, revela-nos um homem consciente de que a saúde se garante através do exercício físico e da prática do desporto. Aliás, Januário Barreto interpretava e praticava aquilo que aprendera na Casa Pia, cuja tradição no domínio desportivo ganhara raízes desde muito cedo. Já no final do sua curta mas prolífera vida, o dr. Januário Barreto seria um dos fundadores da primeira Liga Portuguesa de Futebol, da qual foi presidente. Morreu em 1910, com apenas 33 anos de idade.
O casamento de Januário Barreto e Carolina Beatriz Ângelo durou uns escassos 8 anos. Carolina, aliás, pouco tempo sobreviveu ao marido: viria a morrer um ano depois, em 1911, com 34 anos. Mas, como disse Leonardo da Vinci, «uma vida bem preenchida torna-se longa». E a vida de uma mulher progressista e inconformista como Carolina Beatriz Ângelo não se esgotou na família e na profissão: desde os tempos de estudante que militava activamente no movimento feminista e sufragista, defendendo com persistência e lucidez os direitos cívicos e políticos da mulher portuguesa. Com Ana de Castro Osório e outras sufragistas funda a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, da qual seria vice-presidente. Foi também activista e presidente da Associação Feminista Portuguesa. A uma e outra destas associações cívicas defensoras da emancipação da mulher dedicou muito do seu tempo e do seu trabalho.
Carolina Beatriz Ângelo ficou na história dos movimentos cívicos portugueses como a primeira mulher a exercer o direito de voto, em Portugal. Na verdade, quando se realizaram as eleições para a Assembleia Constituinte Republicana, em Maio de 1911, a ilustre e dinâmica médica feminista requereu a um tribunal o direito de votar. Existindo na altura um certo vazio legal, devido à mudança de regime e ao clima revolucionário, o juiz João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório, despachou favoravelmente o recurso e Carolina votou. Infelizmente, a nova Constituição não consagraria esse acto pioneiro e o voto da dr.ª Carolina Beatriz Ângelo seria ainda, por muito tempo, uma excepção. Apenas em 1931 viria a ser concedido o direito de voto a algumas mulheres portuguesas, aquelas que possuíssem cursos superiores ou secundários. E, como sabemos, durante os 43 anos de ditadura que se seguiram, de pouco lhes serviu esse direito.
A coragem, a inteligência e o espírito cívico da médica-cirurgiã Carolina Beatriz Ângelo justificam plenamente a homenagem que agora se lhe presta. Há homens e mulheres que têm muito mais de Quixotes que de Sanchos. Homens e mulheres que sonham acordados e vêem um mundo transformado pelo seu esforço individual, pelo seu sacrifício, pela sua luta incansável e persistente, face aos acomodados e aos indiferentes. Sonham acordados um mundo novo, saído do seu combate contra os moínhos de vento da desigualdade e da injustiça. Carolina Beatriz Ângelo foi um desses seres humanos. Generosa e altruista, bem poderia ter dito, como disse mais tarde Martin Luther King: «I have a dream…». O sonho de Carolina era o de uma sociedade sem discriminação, em que as pessoas se distinguissem pela nobreza de espírito, pelo saber e pelo trabalho, e não pelo berço, pelo sexo, ou pela cor da pele. O sonho de Carolina é hoje (quase!) a nossa realidade. Quase!
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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