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Jorge MartinsAS SENTENÇAS INQUISITORIAIS – A apreciação das sentenças proferidas pelos tribunais da Inquisição pode ajudar-nos a traçar o panorama da acção do Santo Ofício no concelho do Sabugal.

Recordem-se, no entanto, duas contingências com que confrontavam os réus nesta matéria:
1) o advogado de defesa era escolhido pela própria Inquisição e, em consequência, era mais um denunciante dos indefesos réus;
2) o confisco dos bens dos réus era uma fonte de rendimento fundamental para aquele tribunal, pelo que importaria menos que as penas aplicadas fossem muito violentas, do que a apropriação de bens.

SENTENÇAS
SENTENÇAS H M AJ OA TOTAIS
Absolvição 1 1 1
Admoestação 1 1 1 1 2
Cárcere e Hábito 14 26 40 40
Degredo 9 3 6 9
Falecimentos no cárcere 6 6

6
Falecimentos no hospital 1 1 1
Penitências espirituais 4 3 7 7
Perdão Geral 1 1 1
Proibição de Ordens 1 1 1
Reconciliados 1 1 1
Relaxados 1 1 2 2
Residência Fixa 1 1 1
Segredo 2 1 1 2
Soltura 17 15 25 7 32
Sentença Desconhecida 19 19 29 9 38

No actual estado de investigação não estamos em condições de analisar as sentenças de cerca de um quarto dos processos (38). Para os restantes três quartos de processos, sabemos que há um elevado número (40) de condenações ao cárcere e hábito, as mais das vezes perpétuo, seguido de perto pela sentença de soltura (32). Libertar muitos réus sem condenação a uma pena grave, que poderia ser a de simbólicas penitências espirituais, não se configura muito relevante, porque, entretanto, os seus bens haviam sido confiscados no momento da prisão e, por norma, já não seriam devolvidos, independentemente da sentença proferida.
Mesmo assim, ainda se verifica um número significativo de degredados, as mais das vezes para as inóspitas condições das colónias. Também se registaram 7 falecimentos (6 no cárcere e 1 no hospital) no decorrer dos processos. Isto deve-se, seguramente, às violentíssimas torturas de a que os presos eram sujeitos. Sabe-se que, durante a tortura, havia um médico a observar os réus, não para os proteger da violência e os tratar, mas para que não morressem em plena tortura, mas para que pudessem continuar a ser torturados.
A sentença mais grave era a de relaxados, que condenava os réus a morrer nas fogueiras, ateadas em locais públicos ventosos, atados a um poste alto, para que fossem lentamente consumidos pelas chamas. Geralmente, era perguntado aos condenados à fogueira, já atados ao poste, se preferiam morrer na fé judaica (ou outra não cristã) ou se convertiam, à hora da morte, ao cristianismo. Os que escolhiam a conversão eram garrotados (enforcados) primeiro e queimados depois. Os que não conseguiam abandonar o judaísmo, mesmo nesse terrível momento em que sabiam que iam morrer, eram queimados vivos, sofrendo durante horas, pois os órgãos vitais não eram logo atingidos, perante a população ululante.
Se agruparmos as sentenças em três níveis de dureza, verificamos as penas mais duras são em menor quantidade (18) e as mais leves em maior quantidade (48), ficando as restantes num nível intermédio (40). Para o nível mais duro, juntámos o degredo, o falecimento no hospital ou no cárcere e a sentença de relaxado. Para o nível intermédio, considerámos apenas o cárcere e hábito, que era muito usual nas sentenças, sendo muitas vezes considerado perpétuo e noutras reduzidas a um pequeno período. As restantes sentenças foram consideradas penas leves.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

martinscjorge@gmail.com

Terminou ontem o Ciclo Manuel António Pina, promovido pelo Município da Guarda em homenagem a um dos maiores poetas portugueses da actualidade. Associando-nos à consagração do escritor publicamos dois pequenos textos autobiográficos de Manuel António Pina, onde fala no Sabugal, sua terra de nascimento.

«Uma vida de aventuras
O meu nome é Manuel António Pina. Nasci numa terra com um grande castelo, nas margens de um rio onde, no Verão, passeávamos de barco e nadávamos nus. Chama-se Sabugal e fica na Beira Alta, perto da fronteira com Espanha. Quando era pequeno, olhava para o mapa e pensava que, por um centímetro, tinha nascido em Espanha.
Mais tarde descobri que as fronteiras são linhas inventadas que só existem nos mapas. E que o Mundo é só um e não tem linhas a separar uns países dos outros a não ser dentro da cabeça das pessoas.
A verdade é que, por causa da profissão de meu pai, vivi (depois de ter nascido, antes não me lembro…) em muitas diferentes terras e, por isso, não tenho só uma terra, tenho muitas. Uma delas é o Porto, onde vivi mais tempo do que em qualquer outra, onde nasceram as minhas filhas e onde provavelmente morrerei um dia.
Como fui durante muitos anos jornalista, mais de trinta, viajei um pouco por todo o Mundo, da América ao Japão, da China ao Brasil, da África ao Alaska. E como sou escritor tenho viajado também por dentro de mim mesmo. E por dentro das palavras. Assim, apesar de ter nascido numa terra com um grande castelo, nas margens de um pequeno rio, não pertenço a lugar nenhum, ou pertenço a muitos lugares ao mesmo tempo. Alguns desses lugares só existem na minha imaginação. Porque a imaginação, descobri-o também, é o modo mais fantástico que há de viajar.»

«Nove livros mais um
Em casa de meus pais não havia livros. Ou melhor, havia apenas um ou outro (dois, acho eu) de literatura cor-de-rosa, ou lá que cor é, de Delly, uma Vida sexual de Egas Moniz, um estudo, julgo que (mas não tenho a certeza) também de Egas Moniz sobre Júlio Dinis, uma monografia do Sabugal e mais um ou outro de que já não me lembro, além da Estilística da Língua Portuguesa , de Rodrigues Lapa, que era conhecido de meu pai e lha dedicara e oferecera. Uns mais tarde outros mais cedo, li-os todos, claro, e com particular emoção a Vida Sexual e a Estilística , que ainda devo ter algures por aí, juntamente com a monografia do Sabugal»
plb

Na sequência do artigo sobre D. Filipe I, do nosso ilustre colaborador Adérito Tavares, talvez valha a pena desenvolver um pouco mais o tema das representações sociais que entre portugueses e espanhóis fazemos reciprocamente. Longe de esgotar o tema neste modesto artigo, acho interessante que o «Capeia», constituído por gente da raia, habituada ao convívio da fronteira, se expressasse sobre o olhar recíproco entre uns e outros.

Batalha de Aljubarrota

António Cabanas - «Terras do Lince»O que pensamos sobre os outros povos, e em concreto sobre os nossos vizinhos, são por vezes ideias preconcebidas, representações sociais estereotipadas, geralmente erróneas, que o convívio da história ajudou a construir e é de esperar que a forma como os outros nos vêm sofra de idênticos defeitos. É também natural que a opinião dos raianos seja um pouco diferente da opinião da restante população, afinal foram os raianos os que mais sofreram com a dureza das guerras e, em consequência, se viram na obrigação de esquecer ofensas passadas. De forma genérica, depois de séculos e séculos de litígios, é natural que os países vizinhos se vejam reciprocamente com alguma desconfiança. Desconfiança que o recente período de paz e de união europeia não apagou totalmente e que parece ser mais acentuada do nosso lado.
Defensor da independência nacional até ao tutano, gosto dos espanhóis (e das espanholas), da sua cultura, do seu património histórico, das suas belezas naturais, da sua moderada pontualidade e até mesmo da sua gastronomia.
Lidando há muito com projectos de cooperação transfronteiriça, surpreendeu-me há tempos um técnico da Diputación de Cáceres que, a meio de um almoço com outros cacerenhos, defendia que os seus compatriotas eram mais inteligentes que os portugueses. Ainda não tinha chegado a crise económica mundial, a Espanha vivia eufórica, na bolha de crescimento económico, enquanto em Portugal, derrapavam as contas públicas e o sentimento geral traduzia-se no famigerado discurso da tanga.
Aquilo da inteligência espanhola provocou-me azia, recordei ao meu interlocutor que o seu país vivera tempos de miséria em pleno século XX, e, pressentindo-lhe alguma ignorância já me preparava para puxar dos galões da nossa História mais antiga, onde me sentia à vontade. Dei-me então conta que teria de inverter a estratégia, e até ser magnânimo e defender o infeliz, já que os outros espanhóis presentes, caíram-lhe em cima como cães a bofe, desmontando a fanfarronice do patrício e enaltecendo Portugal como se ele fosse o melhor país do mundo. Estava resolvido o diferendo!
Isto de ter opinião sobre os outros povos nem é coisa só de vizinhos. Leia-se, a propósito o que escreveu o economista alemão Friedrich List, em 1841, sobre os povos ibéricos, por oposição aos ingleses: Enquanto os ingleses se esforçavam, durante séculos, por erguer o edifício do seu bem-estar nacional sobre bases sólidas, os espanhóis e os portugueses, através das suas descobertas, conseguiram uma sorte rápida, atingindo grande riqueza em pouco tempo. Mas era a riqueza de um esbanjador que ganhou a sorte grande. Na opinião do alemão, seríamos assim, hispanos e lusos, uma espécie de jogadores da lerpa, chapa ganha, chapa batida! Mas este discurso germânico, além do desdém que demonstra em relação aos povos ibéricos, também esconde uma certa inveja do sucesso inglês. Por contraponto, «nós» aceitamos de bom grado o que vem dos germânicos e quase sempre desconfiamos dos nossos vizinhos, sobretudo quando se trate de investimentos.
Gravado no nosso subconsciente, há ainda uma espécie de estigma dos filipes. Pela minha parte, nunca vi razão para qualquer sentimento de inferioridade a não ser no tamanho: Portugal, um ovo, França uma eira e Espanha uma joeira! Mas não nas proezas épicas e muito menos na guerra. Afinal Filipe I, de sangue lusitano, entrou em Portugal porque a nossa nobreza o aceitou sem luta – na batalha de Alcântara, as tropas de D. António eram constituídas por um punhado anárquico e desorganizado de prisioneiros! Já durante a restauração, a colossal Espanha levou tareia em toda a linha, David bateu Golias, quando se esperava que face ao tamanho, a joeira esmagasse o ovo. Poderíamos falar de outras batalhas, como Aljubarrota, ou comparar o nosso desempenho perante inimigos comuns. O saldo foi-nos francamente favorável, caso contrário, seríamos hoje espanhóis. Por isso, é no mínimo absurda a perspectiva que os militares espanhóis tem de «nós». Segundo os estudiosos dos temas militares aprende-se na historiografia militar espanhola que os portugueses são cobardes. O próprio Franco, Generalíssimo, ao ser confrontado com a possibilidade de haver, em 1975, uma guerra civil em Portugal, terá confessado, no seu leito de morte, que não acreditava nessa hipótese porque conhecia a suposta cobardia dos portugueses. Esta abordagem é restrita aos meios militares, não a comungam o resto dos espanhóis e foi sendo construída nos relatos de batalhas entre os dois povos, sempre demasiado pintados com a cor da sua bandeira nacional. Em matéria de cobardia pedimos meças, podemos contrapor a chacina dos povos ameríndios indefesos, praticada por espanhóis, com a resistência portuguesa a exércitos armados por russos e americanos, aliás, fomos mesmo mais resistente potência colonizadora europeia (para o bem e para o mal).
Há sempre alguns dos nossos que logo dizem que o Tratado de Tordesilhas deu aos espanhóis o ouro e a prata e a «nós» as mulatas e a caipirinha! Há ainda os engulhos mal resolvidos, como Olivença e as cócegas que nos causa o facto dos espanhóis não fazerem o mínimo esforço para falarem a nossa língua, enquanto «nós» nascemos a falar espanhol. Mas isso até dá jeito, pois permite, nas negociações, fazer apartes que «eles» não entendem, coisa que «eles» não podem fazer na nossa frente.
O romance «O Mar de Madrid», do açoriano João de Melo traz à liça a característica ruidosa dos espanhóis: não só falam alto como parece gostarem de se ouvir, deliciando-se com a sua própria língua. Vistos pela espanhola do romance, «nós», pelo contrário, surgimos, de olhar distante, silenciosos, quase ciciando quando conversamos. Uma espécie de acanhamento que se liberta depois de bebermos uns copos, acrescento eu!
A maioria de «nós» considera cinismo a referência que «eles» fazem aos lusos como «nuestros hermanos», que por vezes também usamos mas só na língua deles. Nossos irmãos, «nós» dizemos dos brasileiros, aplicado aos espanhóis, não nos soa bem! No entanto, creio que «eles» o fazem com sinceridade, que se acham mesmo «nuestros hermano», coisa impensável com os seus vizinhos franceses.
A pulverizada identidade espanhola, em que um indivíduo se sentirá primeiro basco ou galego e só depois espanhol, faz com que os espanhóis, que afinal são bascos, galegos ou andaluzes, nos olhem de forma diferente, como o basco olha para o galego ou o galego olha para o andaluz. Para «eles» somos portugueses, como «eles» são bascos, galegos ou andaluzes.
Pelo contrário «nós» temos uma espécie de hiper-identidade ou dupla identidade como diz o grande pensador Eduardo Lourenço, também ele de Riba Côa. Sentimos a necessidade constante de afirmar essa identidade e sobretudo perante os espanhóis, como o fez Manuela Ferreira Leite, lembrando a Sócrates que Portugal não é uma região de Espanha, não fosse ele ou Zapatero esquecerem-se. Por outro lado sentimo-nos pequenos perante a Europa e perante a Espanha (embora aqui só no tamanho), mas sentimo-nos grandes e imperialistas perante o mundo (dupla identidade).
Ainda a propósito de tamanho, não pude deixar de sorrir com a leitura de um artigo onde se garante que a Durex, empresa que comercializa preservativos, os vende em Portugal com 1 cm em média mais compridos que em Espanha o que deita por terra a elevada auto-estima do macho latino espanhol! Como o artigo foi escrito por uma portuguesa a viver em Madrid, não poderemos duvidar!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

Republicano de primeira água e dirigente partidário empenhado nas lutas políticas do seu tempo, Manuel Brito Camacho chegaria, com a implantação da República, a ministro do fomento e alto-comissário em Moçambique. Também se notabilizou como tribuno, sendo considerado um dos mais exímios oradores da Câmara dos Deputados.

Mas este médico e militar de profissão ficaria sobretudo conhecido como jornalista, publicista e escritor. Algumas das suas obras literárias tiveram assinalável êxito, onde se destacam as narrativas e as reflexões políticas. Brito Camacho é porém hoje um escritor esquecido, impiedosamente cilindrado pelo tempo, sendo importante redescobrir a sua notável obra.
O seu livro «Gente Rústica» reúne um conjunto de memórias e de contos, cujo epicentro é o Alentejo, sua amada província de nascimento. O enquadramento é a planura pejada de searas e de sobreiros, onde se dá conta das formas de vida de antigamente, do tempo da infância e juventude do autor. É uma eloquente sucessão de textos que narram a vida do campo, falando nos defeitos e virtudes das pessoas que ali enfrentavam as rudezas de uma existência difícil. A cada página surge a descrição dos variados trabalhos campestres, as formas de divertimento do povo, as tradições, as festas e as romarias.
O livro é também autobiográfico, dando testemunho das experiências de vida do autor, que recorda com enlevo pessoas, imagens e acontecimentos que marcaram a sua juventude. No capítulo com a epígrafe «O Romana», aborda a vida de um criado do seu pai, que adorava andar no trato dos animais, desprezando tudo o mais que lhe surgisse pela frente. Descreve também a festa de S. Romão, em Rio de Moinhos, terra natal do autor, realizada anualmente no campo. Para além do serviço religioso, a romaria incluía arraial, feira de estalo, merenda e uma noite passada ao relento.
Assim descreve Brito Camacho o bródio campestre que a festa proporcionava:
«Estendem-se as toalhas no chão, muito brancas, e cada qual serve-se como pode, um garfo para três e um copo para todos. Na improvisada mesa dos lavradores há geralmente borrego, galinha ou peru e a todos se oferece de comer, umas vezes por mera delicadeza – é servido? –, outras vezes com a insistência de quem deseja que o oferecimento seja aceite.
– Chegue-se para cá, senhor Fulano, e coma alguma coisa. O que há está à vista. É pouco mas é oferecido de boa vontade. Isto em festas…
Poucos comem, mas quase todos bebem, e é de rigor a saúde:
– Pois lá vai pela saúde do sr. Fulano e da mais família.
Melancias vermelhas destacam-se nas toalhas brancas partidas com mestria, por forma que o coração, formando castelo, se ergue no meio das talhadas como uma fortaleza de ameias.
À melancia é que ninguém resiste.
– Isto não enche a barriga. Olhe que é muito boa. Derrete-se na boca como um torrão de açúcar.»
Brito Camacho, escritor hoje arredado dos escaparates e esquecido na história literária, bem merece ser revisitado. Homem de escrita simples e escorreita, pouco afeito a estilos elaborados, descreve genuinamente a vida antiga, reflecte sobre as tradições populares, põe a nu os encantos das paisagens campestres e opina abertamente sobre questões de política e religião.
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

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