O actual concelho do Sabugal tem afinidade com o planalto do baixo Douro, tal como tem com o Norte da actual Beira Baixa. Isto pela simples razão de que sempre houve uma linha de fronteira a dividir o concelho numa zona Norte, que abrangia os antigos concelhos de Alfaiates e Vilar Maior, climática, cultural e historicamente mais ligada ao planalto do Águeda e Douro e outra, mais a Sul, abrangendo os antigos concelhos de Touro, Sortelha e Sabugal, com afinidades à Beira Baixa.

Fig. 1 – Fernando A. Seco
1560
Fig. 2 – Outro pormenor
do mesmo mapa
Fig. 3 – Pierre Mortier
Séc. XVII
Fig. 4 – Sanson d’Abdeville
Geógrafo D. João IV (1654)
Fig. 5 – Autor desconhecido Fig. 6 – António Vizarro
1704
Fig. 7 – Gaspar Baileu
1700
Fig. 8 – Autor desconhecido
1705
Fig. 9 – I.B. Nolin
1724
Fig. 10 – Charles Allard
Séc. XVIII
Fig. 11 – Nicolau Vischer
Finais séc. XVIII
Fig. 12 – Placido Agostinho
Finais do séc. XVIII
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João ValenteA divisão administrativa, eclesiástica e judicial entre estas duas fronteiras sempre existiu desde o tratado de Alcanizes até à reforma administrativa do século XIX que incorporou os concelhos do Norte no do Sabugal, porque aqueles, enquadrados na bacia hidrográfica do Côa (fig. 5), que corre para o Douro, pertencendo inicialmente ao bispado de Cidade Rodrigo até D.João I, sempre foi do bispado de Lamego e depois de Pinhel (até à supressão deste) e da correição judicial de Pinhel e província de Trás-os-Montes (sub-região de Riba de Côa), enquanto os do Sul pertenceram sempre ao Bispado da Guarda, correição judicial de Castelo Branco e Província da Beira, como Penamacor. in Mapa de Portugal Antigo e Moderno, tomo I, 1762 (e Figs. 3 a 12).
A fronteira física entre estas duas áreas, administrativas, judiciais e religiosas coincidia com as dos limites Sul dos concelhos de Vilar Maior e Alfaiates, as quais seguiam pela linha da ribeira de Aldeia da Dona (ribeira de Palhais, figs. 3 e 4) até à fronteira com Espanha (figs. 3, 4, 7, 10 e 11).
Aliás, a ribeira de Palhais (de Aldeia da Dona) era, como as ribeiras de Arnes e a do Meimão, que passa no Sabugal, um afluente da ribeira de Côa, que por sua vez, todos os mapas antigos (figs. 1 a 11) de Portugal até aos fins do século XVIII (fig. 12) faziam nascer em Alfaiates, passando em Vilar Maior e nunca no Sabugal.
E que assim era, comprova-o a descrição pormenorizada de Frei Bernardo de Brito (que era natural de Almeida e sabe por isso do que fala) ao referir que «O rio côa […] nasce em Alfayates e mete-se no Douro junto a Vila Nova de Fozcoa; é rio de muita cópia de peixe, como barbos, bogas, bordalos e outros modos de pescaria. A cor das suas águas é pouco clara, tirante a verde escuro; é de malíssima digestão e muito pesada, causa tristeza, dores de barriga e dores de cabeça, engrossa o entendimento, e para mulheres formosas é de muito pouco proveito porque lhes dana o carão notavelmente, só tem virtude para tingir lãs, e cardar ferro, que neste particular é excelente». in Geografia Antiga da Lusitania, 1597.
Corrobora-o Duarte Nunes de Leão ao afirmar que «a ribeira de Coa de tralosmontes, nasce junto de Alfaiates e vai-se meter no Douro, não longe de Vila Nova de Foscoa» […] e que os povos deste rio chamavam-se «cudanos e transcudanos». in Descrição do Reino de Portugal, ed. de 1610, fol. 38 v.º
Prova-o inequivocamente os pormenores dos doze mapas que reproduzo em rodapé (figs. 1 a 12).
Só a partir de fins do século XVIII é que começou, por causa do lapso nos mapas (confrontar figs. 11 e 12), a confusão também nas pessoas, a ponto de nas págs. 117 e 118 do citado Mapa de Portugal Antigo e Moderno, João de Castro dizer que o Côa «nasce na serra de Xalma, porção da Gata, e entra no nosso reino por folgosinho, Outros lhe dão nascimento mais perto de Alfayates e concordam em se meter no Douro em Vila Nova de Fozcoa».
Resumindo e concluindo: O rio Côa foi, até pelo menos fins do século XVIII, a ribeira de Alfaiates, que passa em Vilar Maior. A nascente da actual ribeira de Alfaiates é que é a nascente histórica do antigo rio Côa.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com