Antes de terminar o ano, vou referir-me novamente à corrupção. Pensei escrever sobre outro tema mais propício à quadra que atravessamos, mas tenho a certeza de que o ano que aí vem não será melhor do que este que irá findar, antes pelo contrário.

António EmidioO irracionalismo e a incompetência serão nota dominante, não se vislumbram no horizonte homens de Estado, dignos desse nome, e as contradições do sistema continuarão. É neste meio que os corruptos irão singrar, e cada vez com mais impunidade, a impunidade é a mãe deles. E eles sabem disso. Como referi no título, vou falar de dois tipos de corruptos.
Ostentoso – o que mostra até à saciedade sinais exteriores de riqueza, riqueza conseguida com a corrupção. Belas mansões, belos carros, jóias, viagens, fatos de marca, frequenta somente sítios luxuosos, entre outras coisas. Gasta tudo no exibicionismo. É chantagista, mostra delicadeza e educação nas conversas que tem, também é afável. Sorri constantemente. Não se prende com rodeios, pede logo o que quer e quanto quer. Escuda-se por detrás de um pormenor que em nada abona a justiça portuguesa, sabe que até ao presente momento, nenhum caso de criminalidade económica/financeira grave, e que envolvesse gente poderosa, chegou ao fim com uma condenação.
«Pobre Diabo» – que tipo é este? Por norma não ostenta as riquezas adquiridas com os actos de corrupção. Perante a opinião pública apresenta-se como alguém pobre, até necessitado. Mostra-se de uma feroz intolerância para com a corrupção e os corruptos, quer mostrar-se integro aos olhos dos colegas e superiores hierárquicos, para melhor encobrir as sujas jogadas. Tudo o que conseguiu foi com o seu trabalho, diz ele. Aqui fica um exemplo de um «Pobre Diabo» que conseguiu chegar ao topo da corrupção.
Lê-se no Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, de Dezembro de 2009, a seguinte transcrição de um outro jornal português, o Expresso:
«Um caso de sucesso» – «O rapaz nasceu de uma família pobre, cresceu num ambiente difícil, mas conseguiu acabar os estudos numa universidade. Tornou-se professor, e mais tarde politico numa autarquia. Aos 50 anos, reformado do ensino, mas ainda activo na política, tem casas, terrenos, carros e barcos. Olhando com mais atenção a mesma história, poderia ser um caso de polícia: o valor do património do autarca está muito acima do que seria possível adquirir com o seu vencimento mensal. A situação, que é real, foi investigada, mas o processo acabou arquivado por não ter sido provado qualquer crime por parte do político. Que está a construir uma nova casa».
Não pede directamente o que quer, lastima-se, diz-se pobre, ele sabe que o seu interlocutor compreende onde quer chegar.
Atenção! É perigoso, invejoso e vingativo, se puder destruir a vida a um colega de trabalho, não hesita. E à pessoa a quem pede, se por acaso não «compreender», faz-lhe a vida negra. Tem como lema: «Se eu não comer, comem outros.»
Querido leitor(a), desejo-lhe para o ano que vai entrar, tudo de melhor, e que nunca, mas nunca, chegue ao pé de si, gente como esta.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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