A sabedoria política dos Romanos é que inventou a fórmula: para manter o povo calmo, amorfo, narcotizado, bastava dar-lhe diariamente panem et circenses (pão e circo).

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaNuma megalópole como a Roma antiga, com mais de um milhão de habitantes no século II, existia o número assustador de 200 mil plebeus desempregados, prontos para serem manipulados e empurrados para qualquer movimento social de consequências imprevisíveis. Bastava que qualquer agitador, dotado de uma oratória fácil e inflamada, os atraísse a uma causa, justa ou demagógica, para que a cidade e a própria pax romana tremessem. Portanto, todos os dias o Estado fazia distribuições gratuitas de trigo e, no Coliseu, matavam e morriam dezenas de gladiadores. No Circo Máximo (com capacidade para 250 000 espectadores, o quádruplo do Estádio da Luz), efectuavam-se corridas de cavalos durante todo o dia, em todos os dias do ano!
E assim, cantando e rindo, levados, levados sim, os Romanos deixavam que os cérebros iluminados dos imperadores, dos senadores, dos cônsules, dos pretores, dos questores, dos edis e tutti quanti decidissem e governassem em paz, sempre em nome do SPQR (do Senado e do Povo Romano).
Verdadeiramente, de então para cá, neste domínio, os políticos pouco inovaram. Mais circo menos circo, mais futebol menos futebol, mais novela menos novela, resume-se tudo ao panem et circenses. Alguns limitaram-se a acrescentar à fórmula um pouco de maquiavelismo e de demagogia qb. Depois, foi só agitar, embrulhar em papel dourado e servir frio. Resultou melhor que a religião tradicional, a que Marx chamava «ópio do povo». Melhor (pior?) que isso, só se se juntassem os dois processos no mesmo saco, como fizeram os inflamados e predestinados líderes das novíssimas seitas tele-religiosas, florescentes nos Estados Unidos e no Brasil.
Nas novelas brasileiras, para além do mais, existe ainda outro factor de amortecimento, num país onde os desníveis sociais são muito acentuados. Os guiões obedecem habitualmente ao mesmo esquema: encontramos sempre o mundo dos ricos e o mundo dos pobres. E o único processo de mobilidade social, isto é, a única forma de ascensão, é o casamento. E tudo se resume, basicamente, a isso. A rapariguinha suburbana aguarda que o seu príncipe, cavalgando um Porsche Carrera, a desperte com um arrebatado beijo com sabor a malte. Em contrapartida, a menina-bem, vivendo em esplendorosas mansões com piscina, voando para a casa de praia em jactinhos privativos, sempre rodeada de amigos desocupados e servida por criados e motoristas geralmente negros ou mulatos, aguarda entediada que lhe apareça um jovem quadro bem-parecido, originário das «classes baixas» mas inteligente, honesto e trabalhador.
E casam sempre de fraque e vestido de noiva, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, com meninas loiras segurando as alianças e tenores cantando a Ave Maria de Bach-Gounod. E convidam sempre para o casamento todas as personagens da novela. E são sempre muito felizes, na companhia da Gata Borralheira, da Bela Adormecida, do Polegarzinho e de todos os seus irmãos.
E, enquanto brindam com champanhe Dom Perignon colheita de 1967, ao mesmo tempo que aparece no ecrã a palavra «FIM», meio milhão de cariocas gritam na rua, a plenos pulmões, «Não à violência! Não à corrupção!»
Moral da história (ou da História?) – as novelas, isto é, o pão e circo, não foram suficientes.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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