João ValenteEm tempo de Natal publicamos um poema alusivo a esta quadra festiva.

Natal! Noite de Natal!…
Noite sagrada!…
Festa das filhoses,
Dos sonhos,
Das fatias douradas!…

O Toco levantado no meio da praça…
Frio de rachar…
Os pingos congelados
Nos beirais
E a gente arrepiada
Só de ir à rua.

A missa do galo à noite…
A Igreja, Abarrotada de gente,
Cheirando a flores, a velas
No presépio, a Gruta, a Estrela,
O Menino, a Mãe, S. José,
O burro, a vaquinha, os magos
E o Padre Chico na sua casula branca a cantar:
«Glória no Céu, paz na terra,
Para a gente de boa vontade..
»

À saída
A gente vinha a cantar,
A rir… abraçando-se,
Ateava-se o toco…
Labaredas incendiando os muros…
Gritos,
Bombas de foguetes,
Confusão,
Faúlhas a subirem no ar,
O garrafão do Zé Santo
De mão em mão,
A concertina do Zé Laranja a tocar
E todos em roda a cantar:
«Entrai pastores entrai, por esses portais adentro…
Vinde adorar o menino, que está em palhas deitado…
»

Depois,
Cada um tomava o caminho de casa,
Espevitávamos a lareira,
Grandes troncos ardendo,
O fumeiro, por cima, a secar,
As meias das crianças penduradas na chaminé,
A família sentada, em redor da mesa,
Naquela moleza de barriga farta,
O bacalhau, as couves, as batatas, regados com o fio de azeite
O vinho novo da pipa, os doces da avó… Aletria! Arroz doce!
E lá fora grupos de rapazes, a cantarem ao desafio:
«Natal Natal… Natal Natal…
Filhós com vinho não fazem mal!…
»

A cantiga afastando-se:
O vento a trazendo, O vento a levando…
Sumindo-se com a noite…
De ali a nada… O Carlos grande e o Carlos pequeno
Rabugentos! Cabeceando de sono!
A Fátima com a sua boneca de trapo!
A irem para a cama levados ao colo…
O Avô João sentado na cadeira de palha, ao lume,
Eu nos joelhos dele a ouvir-lhe as histórias
E a avó Maria da Luz limpando os olhos com a ponta do avental
A sacudir aquela aguadilha que teimava em aparecer-lhe…
De tanta felicidade.

O lume morria…
A torcida da candeia esmorecia…
O avô tirava do bolso uma goluseima, levantava-se:
«Em Nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen…»

E ia-mo-nos deitar…

«Arroz com Todos», opinião de João Valente
joaovalenteadvogado@gmail.com