Começar esta crónica com este título traz-me uma recordação dos tempos da escola primária, hoje escola do ensino básico, quando com simplicidade nos referíamos à diferença entre o Homem e os outros animais – o homem é o único animal racional. Hoje, esta definição parece simples de mais num mundo cada vez mais complexo e a necessitar isso sim, da existência de um Homem como animal racional.

José Manuel Monteiro - «Largo de Alcanizes»E ser racional implica ser tolerante. Tolerante com a diferença, seja ela de natureza física, sexual, etária, racial ou religiosa.
A proibição da construção de novos minaretes, aprovado por 57% dos suíços remete-nos para a intolerância religiosa e para fenómenos que alguns já chamam de «islamofobia». Num país em que cerca de 5% da população (cerca de 400 mil) é de origem árabe só um partido xenófobo da extrema-direita – Partido Popular Suíço – confundindo alguns com o todo, e utilizando o medo lançaria uma campanha contra a construção da torre (minarete) das mesquitas, onde os fieis são chamados às cinco orações diárias,
E esta proibição nada tem a ver com questões urbanísticas ou estéticas, mas tem somente a ver com a associação feita entre a torre, o islão e o terrorismo. Foi bem elucidativo o cartaz usado na campanha, em que os minaretes eram apresentados como mísseis, numa associação directa ao terrorismo. O minarete foi assim apresentado como o símbolo da invasão islâmica. O que esteve em referendo não foi a construção, ou o pedido de construção de novos minaretes, mas sim a liberdade religiosa, num país conhecido pela sua tolerância e neutralidade. A este propósito as noticias apontam para que da cerca de 180 mesquitas existentes na Suíça somente quatro têm minarete construído e sem apelos sonoros às orações.
O que esteve e está em causa e nos deve fazer reflectir, não são as ideias de partidos de direita e a xenofobia normalmente a eles associados. O que esteve e está em causa é a adesão popular a essas mesmas ideias.
MinaretesAté ao referendo todas as sondagens apontavam para a derrota do sim e a respectiva proibição. Contudo, no momento do voto, na solidão da câmara de voto, o populismo, o medo, a associação de minorias à crise, ao crime e o encontrar bodes expiatórios para todos os males, fez com que no país da neutralidade fosse violado um dos direitos consagrados na convenção do direito do homem – o direito á liberdade religiosa. É muito mais simples apontar os outros como a razão da crise, do que assumir que a crise tem origem nas políticas do próprio sistema.
Num país em que a democracia directa faz parte do sistema politico, resta ao governo suíço (conselho federal) que estava contra esta medida, mas que já disse respeitar a vontade da maioria, o apelo do partido os Verdes para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, para a não entrada em vigor da lei resultante deste referendo.
E para terminar porque não fazer um apelo ao mesmo partido que propôs este referendo, para que proponha um outro proibindo o depósito dos petro – dólares depositados nos bancos suíços?
«Largo de Alcanizes», opinião de José Manuel Monteiro

jose.m.monteiro@netcabo.pt

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