A Balada da Neve é o poema mais conhecido de Augusto Gil, escritor guardense cuja obra se inspira na cidade mais alta e na gente que a habita. Embora nascido (em 1870) no Porto, foi para a Guarda ainda petiz e ali cresceu e se fixou, mau grado alguns períodos de afastamento, nomeadamente em Coimbra enquanto estudante universitário e depois em Lisboa onde ocupou cargos na Administração Pública.

Gente de Palmo e MeioPara além da poesia, Augusto Gil também se aventurou pela narrativa, de onde se destaca o livro «Gente de Palmo e Meio» que é, afinal, uma colectânea de contos de grande profundeza humana. São trechos da vida de crianças, umas pobres outras ricas, ainda algumas remediadas, que evidenciam a enorme sensibilidade do autor para os dramas que o rodeiam. As histórias centram-se em Lisboa, e relatam curiosas peripécias de petizes, que comovem o leitor.
Alguns dos contos referem o sofrimento das crianças que vivem em extrema carência, ajudadas por uns e enxotadas por outros. Também retratam miúdos corajosos que, sozinhos, desafiam o mundo, num sinal da maturidade que a vida difícil lhes proporcionou. Ainda há outros onde impera a ironia ou o fino humor. O contos «O Pobrezinho Honrado» retrata a vida madrasta de um menino de Manteigas que desceu a Lisboa com o pai para o ajudar na profissão:
«- Donde és tu menino?
Ê cá sou de Manteigas…
– Sim? E tens pai?
Dilatou-se-lhe a boca num sorriso claro que acendeu um brilho maior na chama dos seus olhos límpidos.
Antão não havêra de ter pai!…
– E que vida é a dele?
– Vende fazenda coma mim…»
Augusto Gil relata em traços fortes esta gente pequena, que comia sopa desenxabida ou pequenos nacos de pão migado no leite, quando não apenas uma peça de fruta. São relatos de comida pobre, num mundo desventurado.
Mas, no que toca a comeres, ninguém fica indiferente ao conto «A Santinha», que expõe a bondade de uma menina, «linda como o luar, de boca fresca e rubra que nem uma cereja mordida». Filha de gente abastada, vivia numa grande quinta, brincando só, à sombra de um cedro gigante:
«A criada desceu com o lanche numa salva, poisou-lha no banco de sobro, ao pé do cedro e, furtando-lhe um beijo, foi-se.
Os dois filhos do feitor, nem que lhes tivesse dado o faro da pitança, surgiram do lado oposto e quedaram-se numa atracção muda, a dois passos da bandeja…
A Lili ergueu o guardanapo, a ver: e seis olhos caíram ao mesmo tempo sobre um pastel de folhado, uma fatia barrada de manteiga e um cacho d’uvas moscatéis.
Pegou no cacho e ofereceu-o ao mais velho.
Tirou o pastel e deu-o ao mais novo.
Por fim, erguendo o que restava – era a fatia – levou-a à boca…
Mas um cachorrito ladino, vindo d’algures, a dar à cauda, acercou-se do grupo, de focinho no ar e pupila reluzente, com os latidos e migalhices que estavam mesmo a dizer:
– E eu?!…
A Lili sorriu; e depois de reflectir por uns instantes, privou do pão a sua boca e chegou-o à boca do cãozito, num doce gesto, resignado e vagaroso…»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

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