Numa pequena vila do Interior vivia um velho médico, que totalmente abstraído da vida social, se converteu em recluso. A sua prática médica não era muito extensa, porque ao longo da vida se limitou a curar umas febres sazonais, a fazer uns partos e pouco mais. Escreveu contudo um livro, um manual de medicina natural, cujo título aqui não vem ao caso, em que expunha, além das terapias para um extenso rol de maleitas, uma estranha e curiosa teoria…

João ValenteDizia ele, que era possível, uma pessoa de boa saúde poder prognosticar a sua morte com precisão, até um ano antes de ela acontecer.
E dava exemplos concretos em que tinha feito os seus prognósticos acertados; e de pessoas que advertiu do eminente decesso e que morreram no prazo fixado, sem causa conhecida.
Pois um dia, o bom do médico recebeu a visita de um conterrâneo, homem de idade também, que lendo o seu livro, o foi consultar sobre os sintomas, do que julgava ser o decesso eminente.
Ouviu o bom médico atentamente os queixumes do homem. Depois ficaram ambos calados.
Deu-te alguma coisa hoje – perguntou o médico – alguma coisa que te fizesse suspeitar da morte?
O homem olhou-o fixamente e não respondeu.
Talvez – continuou o médico – algum gesto, um sinal, qualquer coisa, porque conhecesses o sinal da morte…
O homem ficou impaciente, um pouco nervoso.
– Sim. Li o seu livro e tratei um familiar durante três anos com as suas mesinhas. Morreu…
O médico deu umas passadas, visivelmente incomodado, pela sala e sentou-se.
Doutor – continuou o homem – o que me diz, como médico? Vou morrer?
– Não! És a pessoa mais saudável que conheço. Volta para casa. Lembro-me que tocavas concertina como ninguém. Toca uma coisa alegre e divertida e esquece este maldito assunto da morte.
Uma semana depois, o homem, que vivia numa comprida rua desabitada, foi encontrado morto em casa, a concertina no colo. Tocara um corridinho. A seguir, na Antena2, dera a marcha fúnebre de Chopin.
E no jornal sabugalense onde saiu a notícia necrológica, vinha em primeira página, que no largo principal da vila, o executivo camarário decidira erguer uma estátua à República!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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