É frequente na política local e não só, usar-se a persistente perda de população como arma de arremesso político. Problema complexo que atormenta o Interior e com o qual temos que lidar, chega a tornar-se angustiante, a pontos de ser visto como uma fatalidade para a qual parece não haver remédio. No intuito de contribuir para a compreensão do fenómeno, queremos, sem pretensiosismo, aproveitar este espaço para, em dois ou três artigos, interpolados, aqui deixarmos algumas reflexões.

Parada Militar em Penamacor

António Cabanas - «Terras do Lince»Um dos problemas mais graves que enfrenta a espécie humana é o excesso populacional e o seu crescimento exponencial, com sérias consequências no ambiente e no equilíbrio dos sistemas ecológicos, comprometendo a própria sobrevivência humana. O problema coloca-se com tal acuidade que há quem defenda o crescimento «zero» a nível económico, como única forma de o resolver e travar a explosão demográfica.
Mas essa é uma realidade longínqua, porque, paradoxalmente, na nossa região a preocupação dominante é, justamente, o despovoamento e a asfixia económica – face ao que atrás se escreveu, aparentemente, até estaríamos no bom caminho!
Nos últimos 50 anos, as regiões do Interior perderam, em alguns casos, mais de dois terços do seu efectivo, o que, associado ao elevado índice de envelhecimento e ao baixo índice de desenvolvimento, se transformou numa preocupante dor de cabeça para os governantes locais e nacionais. Se pensarmos que há regiões de baixa densidade populacional onde se vive bem e com elevados níveis de desenvolvimento, como é o caso dos países nórdicos, a falta de população não deveria constituir sequer motivo de preocupação.
Por outro lado deve salientar-se que não deixou saudades no interior, a vida das gerações que por aqui passaram nas décadas de 50 e 60, em época de muita população. Foi com muito suor e sacrifício, com privações de vária ordem e com muita fome à mistura que os nossos pais conseguiram ultrapassar as dificuldades que o excesso populacional lhes colocava. Em alguns casos, foi o contrabando, com as suas vicissitudes e os seus perigos, que, apesar de tudo, lhes amenizou a vida.
Certamente, ninguém desejará voltar à miséria de há cinquenta anos e, poder-se-á afirmar até, que foram o excesso de população e essa vida de miséria as causas da emigração massiva e do despovoamento da região. Tinha-se ultrapassado a capacidade de carga do território!
Por uma feliz conjugação de factores diversos, as regiões litorais são geralmente ricas, antes de mais, por via dos rios que aí depositam os sedimentos e as tornam férteis, depois, porque, beneficiando da proximidade do mar, possuem recursos mais diversificados e climas mais amenos. Junte-se-lhe a evolução favorável dos transportes marítimos dos últimos séculos e obtêm-se os ingredientes de um quadro quase perfeito de desenvolvimento. Há também, inversamente, regiões pouco atractivas, como os desertos, para usar um exemplo extremo. Sem termos em conta o factor humano, aceita-se naturalmente que cada região tem diferentes potencialidades económicas e de capacidade de carga, o que leva a que umas sejam tendencialmente mais apetecíveis e populosas que outras.
A concentração de investimentos e a atribuição de determinadas funções, mesmo em lugares de poucos recursos, pode torná-los atractivos e populosos. O Entroncamento, por exemplo, que é hoje uma cidade de quase 20 mil habitantes, nasceu de um simples nó ferroviário, instalado em meados do século XIX. As regiões de fronteira tiveram no passado funções seculares que lhes conferiam importância e vantagens económicas, como a defesa e as alfandegas que fizeram das praças-fortes e dos locais de entrada, centros florescentes e indutores de desenvolvimento.
Ao serem esvaziadas dessas funções, as regiões raianas perderam os benefícios que lhes emprestavam atractividade. Parece claro que, através de simples escolhas geográficas, as políticas nacionais de ordenamento do território podem atribuir ou retirar factores de desenvolvimento a determinada região.
Para os municípios que tinham por matriz a agricultura, a tercialização das sociedades modernas (aumento do peso sectorial dos serviços) foi outra das razões de despovoamento e de perda de importância económica. Os avanços tecnológicos, expulsaram a população dos campos, os quais necessitam hoje de uma quantidade de mão-de-obra infinitamente menor do que há 50 anos. Nos países mais desenvolvidos a percentagem de população que se dedica à actividade agrícola é praticamente residual, sem que isso implique menor produtividade. Por estranho que pareça, já quase não existem agricultores nas zonas rurais, preferindo-se as áreas periurbanas, próximas dos consumidores, para a produção de alimentos. As áreas rurais – chamadas agora pós-agrícolas –, por seu turno, vêm-se relegadas para funções complementares, de preservação da paisagem e da biodiversidade, as quais, face às novas tendências, não devem, no entanto, ser menosprezadas.
Assim, em vez de nos mortificarmos constantemente com o problema, – que apenas contribui para baixar a auto-estima – talvez devêssemos pensar nos recursos e nas oportunidades que a baixa densidade populacional proporciona.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

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