No rescaldo do recente ciclo eleitoral vale a pena reflectir sobre a forma como as eleições traduzem o estado actual da democracia portuguesa. Considerado o menos imperfeito dos regimes políticos, a democracia revela-se em toda a sua imperfeição. Olhando, para o preocupante problema da abstenção, sintoma dessa imperfeição, não restam dúvidas que o interesse dos eleitores é inversamente proporcional à distância do poder em causa. Por outro lado o alheamento tende a aumentar sempre que aumenta a complexidade do juízo político. Tome-se como exemplo o referendo sobre o aborto, que introduziu na discussão política questões éticas e científicas, difíceis de entender pelo cidadão comum.

António Cabanas - «Terras do Lince»Compreende-se, por isso, o debate ocorrido em redor da conjugação das datas das recentes eleições legislativas e autárquicas, onde uns e outros se mostraram a favor ou contra a sua simultaneidade. É que nas autárquicas, ao contrário das legislativas, a abstenção desce para níveis mínimos, que chegam por vezes a reflectir apenas o absentismo. Seria ingenuidade pensar-se que, por detrás da posição dos partidos sobre a referida simultaneidade, estivesse a nobre preocupação pelo aperfeiçoamento democrático e pelo combate ao abstencionismo, e não o cálculo frio da vantagem dos votos.
Deixando as análises nacionais para melhores e mais abalizados comentadores, centremo-nos nas autárquicas e na região, escalpelizando um pouco formas, detalhes e resultados políticos. Desde logo, pense-se no efeito de arrastamento: a vitória do PS nas legislativas terá ou não beneficiado os candidatos do PS às autarquias? Embora em pequena escala, pensamos que sim, como pensamos que se as duas eleições tivessem ocorrido em simultâneo, o efeito teria sido maior. Enganaram-se, portanto, nas posições que previamente assumiram, os dois partidos do poder. Grato deverá estar o PSD a Cavaco Silva, que, embora desejoso em lhe fazer a vontade, fez o oposto para não ser acusado de parcialidade. O PS, pelo contrário, que só teria a ganhar com a conjugação e a rejeitou, pode queixar-se de si próprio, por se esquecer da volatilidade do fenómeno político.
Voltando ao dito arrastamento, parece óbvio que começa a ter cada vez menos efeitos. Veja-se a distinção que o eleitorado fez em muitas mesas de voto, nas autárquicas, votando de forma diversa para a Assembleia de Freguesia, Câmara e Assembleia Municipal, sintoma de maturidade democrática, mas também prova de que, mais que os partidos, cujo papel organizativo e de mobilização não se pode sonegar, são as pessoas que ganham as eleições. Registe-se ainda o caso da Covilhã, que deu ao PS uma larga maioria nas legislativas e deu a Carlos Pinto do PSD uma esmagadora vitória duas semanas depois.
Não se pense pois que o eleitorado não sabe o que quer. É verdade que ao nível local o jogo é outro, é mais terra a terra, mais porta-a-porta, mais voto a voto, pressiona-se, marca-se à zona. Por essa razão, ter bons pontas-de-lança, leia-se estrategas, personagens influentes e candidatos ganhadores às Juntas de Freguesia, é meio caminho andado para ganhar a Câmara. Quem não conhecer a cartilha é melhor que fique em casa. Algumas forças políticas apenas vêm à tona de quatro em quatro anos, o que é insuficiente para ganhar eleições. As sociedades não vivem só de política, há mais vida para além do poder. Ganha-se traquejo e notoriedade nas causas públicas, nas colectividades e noutras organizações de fins não lucrativos. Se alguns aparelhos partidários locais são bons exemplos de organização e dinamismo, promovendo debates temáticos, jornadas e outros eventos, outros apagam-se a seguir às eleições e nem sequer elegem as respectivas lideranças.
Câmara Municipal de PenamacorO suposto resquício do antigo regime de que os dinossauros se poderiam eternizar no poder sem que nada os fizesse apear, começa a cair por terra, como o demonstraram os eleitores da Mêda e de vários outros municípios do país. Paradigmático parece ter sido o caso de algumas autarquias comunistas em que já se confundia o partido com a Câmara e que também mudaram de mãos. Convém realçar que, às vantagens óbvias do exercício do poder, se opõem as desvantagens do desgaste, ainda que nos dois distritos beirões a balança pendesse para os «instalados», apenas com uma mudança a Sul e três a Norte.
Lição não menos importante a reter é que não basta escolher pessoas e equipas competentes. Para se chegar ao poder é preciso ganhar eleições, e, nesse capítulo, quantas vezes a popularidade de um candidato chega e sobeja para os melhores argumentos de adversários competentes. Não querendo referir exemplos, atente-se nos acusados e até condenados por crimes graves que continuam impávidos e serenos a merecer a confiança dos eleitores.
Os independentes, inovação das autárquicas de 2001, em que Penamacor escreveu uma página merecedora de análise sociológica, e os partidos da terra, muleta dos que não têm partido, vieram baralhar um pouco as contas. Em geral, uns e outros emergem das divisões fratricidas dos partidos, das facções não alinhadas. Por falta de apoios e de aparelhos, as suas possibilidades de êxito são reduzidas. Em alguns casos mais não fazem que «entregar o ouro ao bandido», leia-se, dar a vitória aos adversários de ideologia, como foi o caso de Oliveira do Hospital, nas recentes eleições.
O Sabugal teve também notas curiosas, com protagonistas de direita apoiando candidatos de esquerda e vice-versa, nada estranho a outros azimutes. Nem precisamos de ir mais longe, recorde-se Penamacor quatro anos antes, em que vários elementos do PS passaram para a coligação de direita, enquanto os independentes apoiados pelo PSD passaram para o PS. Uma simples troca de posições! Confrontado com o epíteto de vira-casacas, dizia-me há dias um amigo que a única camisola que tinha era a do Benfica e nem sabia explicar porquê!
Para finalizar esta brevíssima e despretensiosa análise sou de opinião que, nestas autárquicas, houve generalizadamente pouco arrojo dos partidos políticos. Face ao limite de mandatos, impunha-se já alguma coragem, não deixar todo o jogo para daqui a quatro anos, em que se prevê um verdadeiro terramoto.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

«Há mais vida para além do poder» e… há mais vida para lá da Malcata. As nossas boas-vindas a este espaço de livre opinião ao político e homem de cultura António Cabanas, vice-presidente da Câmara Municipal de Penamacor. Bem-haja pela disponibilidade e pela amizade.
jcl e plb

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