Sempre gostei do Outono, mas agora mais – entrei também no Outono da vida. São bonitas as folhas das árvores com aquele colorido próprio da estação outonal. Ao caírem, alcatifam os caminhos de cor e beleza.

António EmidioDá a sensação do fim, e é, mas na Primavera tudo volta a florir. O «eterno regresso do mesmo», como disse Nietzshe, ou a morte e depois a ressurreição, o voltar a viver, conforme o pensamento dos cristãos.
Seja como for, o Outono é bonito, e eu nessa altura sinto-me nostálgico. Lembro-me quando criança ver passar junto de minha casa o Ti Orlindo «Mono» e o Ti «Merendas» com as suas espingardas a caminho da caça. Ao regressarem, traziam os cinturões cheios de coelhos, perdizes, e lebres. Lembro-me das vindimas, daqueles carros de vacas com as rodas a chiar e fazendo aquele ruído próprio ao passarem sobre as pedras da calçada, com uma dorna em cima, e a caminho do lagar ou da vinha. Lembro-me de tanta gente andar às castanhas. Lembro-me de sujar as mãos a descascar tenras nozes, e de as picar todas, colhendo amoras. Lembro-me da minha falta de jeito para encontrar «tartulhos» e míscaros – ainda agora me vejo e desejo para os encontrar. Tudo isto nos trazia o Outono, agora, são simples recordações, já vejo folhas caídas e ouriços de castanhas em montras chiques de centros comerciais…
Deixe que lhe peça uma coisa querido leitor(a) da diáspora concelhia: quando puder, fuja ao ruído das grandes cidades, ao caos do tráfico, ao stress, à desumanização da convivência, a essa falta de paz, sossego e repouso interior. Fuja de tudo isso e venha passar uns dias à sua terra, creia-me que aqui encontra a paz de que necessita.
Passeie pelos campos, entre em contacto com a natureza, verá que a vida assenta no ar limpo que respira, na água, nos solos, nas árvores, nos bosques, e também nos animais que vir, Sim, nos animais, estes, e a vida vegetal são imprescindíveis para que exista a vida humana, são diferentes de nós em algumas coisas, mas tão parecidos noutras, são os nossos companheiros de viagem nesta passagem pela terra.
E à noite ao serão, sentado(a) à lareira onde ardam uns bons troncos de carvalho, leia um livro de um escritor do Concelho.
Ao deitar, talvez a sentir a chuva fustigar os vidros da janela, reflicta sobre o nascimento, a vida e a morte.
Não, não é ser sonhador nem antiquado, o aperfeiçoamento humano é de sempre.
Não considero progresso, o homem ser invadido por toda a espécie de produtos de consumo supérfluos, no intuito de alguém ganhar bom dinheiro, a isso, à destruição ambiental e à guerra, é que infelizmente chamam progresso e modernidade.
Leitor(a), a debilidade do homem não lhe permite construir paraísos terrenais, mas permite-lhe viver saudável e com dignidade, basta querer.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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