O nome Joaquim Brázia confunde-se com a marca Robinil. A fábrica de sofás e móveis ocupa com todo o mérito, desde 1979, um lugar na história industrial do Sabugal. Mas o espírito de empresário levou-o a voos mais altos com a aposta no aeródromo da Dragoa. Um sonho dos sonhos de criança…

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Joaquim Brázia considera-se uma pessoa realizada principalmente por ter conseguido ficar a viver no Sabugal. Tem uma casa com localização privilegiada e considera ter uma qualidade de vida superior a muitas pessoas nas grandes cidades. «Não é só importante ter dinheiro. É necessário que esse dinheiro traga qualidade de vida. O único senão no Sabugal é o frio mas também esse tem os seus atractivos», diz-nos a iniciar a conversa.
Joaquim Brázia nasceu há 50 anos em Vila Boa. «Sou um ceboleiro», acrescenta, entre sorrisos, com ar orgulhoso. Foi para França dos quatro aos dez anos, voltou a Portugal e frequentou durante cinco anos o seminário de Tortosendo (onde conheceu o Agostinho da Silva do Jarmelo). Os sexto e sétimo anos do antigo liceu foram feitos no Sabugal.
«Fiz a recruta e especialidade em Vendas Novas e depois fui para Lisboa mas não gostei da vida militar. Foi uma desilusão para mim. Sai em 1980. Achei que o curso de linguísticas não me levava a nada e pensei em iniciar por conta própria um negócio de cozinhas. Cheguei a ter reservado um lote na zona industrial mas, entretanto, conheci a minha mulher Anabela Robi. O meu sogro, sócio da Robinil desde a sua fundação em 1979, entendeu propor-me a compra da quota em 1981 e a partir daí estive sempre no ramo do mobiliário», recorda Joaquim Brázia.
– A Robinil é uma marca associada ao fabrico de sofás…
– A Robinil oferece, fundamentalmente, o fabrico de estofo à medida. Temos conhecimento e maquinaria para fabricar modelos que os outros não conseguem executar. Temos duas lojas (Guarda e Castelo Branco) e a loja-fábrica no Sabugal. Até ao final de 2008 tivemos 20 funcionários. Actualmente somos 13 porque as encomendas baixaram muito e estamos a trabalhar abaixo da nossa capacidade.
– A Robinil tem estado presente em certames e exposições?
– Temos tido várias etapas. A primeira foi exclusivamente com a venda ao público para consumo local e numa segunda fase para revenda. Em 1993 fomos vítimas de um valente calote e decidimos regressar às origens e dinamizar mais a venda ao público com a abertura da loja da Guarda e posteriormente de Castelo Branco. O objectivo era concretizar um pentágono – ou não fosse Joaquim Brázia um homem da terra das cinco quinas – que incluía Covilhã, Viseu e Salamanca. Temos sempre na mente uma ponta do cordel que a qualquer momento pode ser puxada e que nos permite avançar e alcançar as nossas metas. A Espanha é atractiva porque tem uma diferença muito grande nos impostos em relação a Portugal. Tenho intenções de ampliar o negócio para Espanha ou para a França. Neste momento a dificuldade é encontrar um colaborador de confiança e bom profissional que promova os nossos produtos em terras francesas.
– A Robinil tem colecções próprias?
– Em 1992 investimos fortemente para ter colecções próprias e achámos que não nos podiam copiar porque tínhamos tecnologia de ponta. Comprámos na Alemanha uma máquina de costura muito avançada para a época que fazia dois pontos muito interessantes mas, passados dois meses, apareceram no mercado produtos iguais ao nosso catálogo de originais. Muito incomodados alterámos a nossa estratégia e agora temos como objectivo ter mais qualidade que os produtos idênticos que existem no mercado. A marca Robinil é reconhecida e adapta-se a todo o tipo de mobiliário.
– Agora as novidades duram cinco segundos na Internet…
– É verdade. Agora as novidades duram cinco segundos e nós temos é que dar resposta ao fabrico à medida. Qualquer cliente que nos visite com uma fotografia ou uma ideia sai da loja com os seus desejos concretizados à medida. Este ano fizemos publicidade no programa televisivo «Preço Certo» que é transmitido em Portugal e França. No mês de Agosto os emigrantes costumam deixar encomendas de um ano para o outro mas este Verão não alcançámos os nossos objectivos.
– Mas o empresário Joaquim Brázia não se limita a sonhar com a Robinil?
– Fora da fábrica não tenho nenhum hobby especial. Não sou caçador, não sou pescador. Mas compreendo a sua pergunta e vou contar-lhe como tudo aconteceu. Conheço o Tó Chûco [António Fernandes] há muito tempo. As várias obras de decoração nas discotecas que foi gerindo foram todas feitas pela Robinil. A última foi a «Crazy Apple» na Covilhã. Em Maio do ano passado estamos numa conversa de café no Mira-Côa e chegamos à conclusão que o Tó tinha sonhos iguais aos meus – voar. A partir daí criou-se uma empatia ainda maior e tudo «voou» a grande velocidade. O Tó já tinha licença de pilotagem, eu fui tirar o brevet a França e comprámos um auto-giro. Inicialmente escolhemos um terreno junto ao Parque Industrial do Espinhal mas como o processo estava um pouco demorado optámos pelo terreno com 750 metros de comprimento junto à estrada Ruvina-Nave. É um investimento totalmente privado. A determinada altura acusaram a Câmara de andar lá a meter máquinas. É totalmente mentira. O único apoio que tivemos da autarquia foi um autocarro que fez duas viagens para ir buscar os pilotos. Mais nada.
– Mas o aeródromo é uma janela de oportunidades para todo o concelho?
– O nosso objectivo é esse. O nosso projecto não está apenas no papel, já está no terreno. Os nossos investimentos têm sido avultados e agora esperamos que as entidades públicas estejam disponíveis para acordos de investimento na lógica público-privada. Os próximos passos são alargar a pista mais dez metros e proceder ao seu alcatroamento. Acreditamos que podem ser criadas condições para uma escola de voo, para um terminal de combate aos incêndios, para um serviço de táxi aéreo entre o Sabugal e Lisboa ou o Porto, para uma empresa de rent-a-car e para uma infinidade de actividades paralelas. Há muitos emigrantes que gostariam de vir de avião mas depois não estão disponíveis para fazer a viagem de carro até ao Sabugal.
– É mais uma solução para a desertificação…
– Se conseguirmos fixar à volta deste projecto 50 pessoas já me considero muito feliz. E tenho a certeza que periodicamente vêem muitas mais. Somos uma região turística com condições naturais espectaculares. O espaço envolvente ao aeródromo pode proporcionar, por exemplo, eventos de motocross. As infra-estruturas podem ser pensadas e adaptadas a muitas actividades desportivas.

Joaquim Brázia e Robinil. Duas referências sabugalenses.
jcl

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