Continuando a análise do livro de apontamentos do Dr Francisco Maria Manso, vamos encontrando pormenores curiosos, que integram a história da construção do hospital do Sabugal. Desta vez optamos por fazer uma transcrição integral das palavras do médico de Aldeia do Bispo, que acompanhou de perto os trabalhos da Comissão da Misericórdia.

Romeu Bispo«Em 1930, após os anúncios nos jornais apareceu um arrematante único propondo fazer as paredes, pondo a C. da Mesericórdia a pedra, por 140 contos!!!
Resolveu-se fazer o hospital por administração directa. O sr. Sousa Martins, da Comissão da Mesericórdia, escreveu para esse fim, servindo-se de todos os meios para dar imediato e bom andamento à obra, de pleno acordo com os restantes membros da Comissão.
Começaram novamente as obras, pelo corte de pedra em “Rendo”, em meados de Julho de 1930, sendo o pessoal de pedreiros quasi todo de “Alcains”.
19-01-931 Continuam as obras estando a ser construído o pavilhão lateral, poente. Começou hoje o corte das madeiras de carvalho que serão oferecidas por vários proprietários, sendo as cortadas hoje oferecidas pelo benemérito Sr. Pe. J. Manuel Nabais.
Manuscrito de Francisco Maria MansoRecebi até esta data duas cartas de sua Exª. Sr.”Nuno de Montemor” pondo-se à disposição da Comissão do Hospital para trabalhar para tão grande melhoramento. Nessas cartas aparece constantemente a bela alma de sua Exª e na sua redacção há mimos de literatura espontâneos, reveladores das suas qualidades de artista das letras que é. Respondi a essas cartas aceitando tão valioso auxílio e com ele contaremos de futuro.
Enviei à Comissão da Mesericórdia um ofício com dez mil escudos, importância que resolvemos na Junta Geral do Distrito, dar para a continuação das obras.
21-Março de 1931 Apesar do dia chuvoso e pouco agradável, deram entrada na vila 17 carros de madeira de carvalho, pinho e castanho, de Aldeia de Sto. António Urgeira e Ameaes, madeira oferecida ao hospital. Estas povoações tinham já oferecido mais 12 carros. A povoação do Baraçal ofereceu 29 carros que deram entrada também pela vila fora, em ar de intensa alegria pela valiosa oferta.
Se no íntimo do homem existe a fera antiga, como querem alguns pessimistas, desejava que assistissem a factos destes para se convencerem que a generosidade humana é uma virtude real e se não a vemos praticada constantemente é porque não há todos os dias ocasiões para ser praticada. Depois são esses pessimistas que não acreditando no que existe de bom no género humano se encerram num feroz egoísmo, incapazes de ao seu semelhante fazerem o mais ligeiro benefício e então o “semelhante” paga-lhe e com toda a justiça em moeda igual e assim lhe parece encontrar “feras” em lugar de homens, começando elas a contar por eles! …
Que seja boa, alevantada e digna a nossa acção e encontraremos, com surpresa do coração humano tudo o que tem de melhor.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

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