«Vasco Pereira Marramaque saiu eleito… por novecentos mil reis, trinta e nove cabritos, e duas pipas e meia de vinho verde» – Camilo Castelo Branco, in Novelas do Minho.

Voto Plenário Juntas FreguesiaNo século XIX o fidalgo minhoto, que chegou a Visconde, foi eleito para a Câmara de Deputados pelo círculo de Braga, em representação do Partido Liberal. Não o foi porém sem adquirir os votos com peitas, porque, como dizia Camilo, «naquele tempo uma consciência de eleitor rural regulava entre dois pintos e quartinho, com jantar de cabrito guisado e vinho à descrição».
Longe vão esses tempos de primícias da democracia, mas, a bem ver, há coisas que são ainda actuais. E de entre elas conta-se a de candidatos serem eleitos à custa do dinheiro ou das prendas que distribuem, ou das rotundas mentiras que proferem em campanha pela angariação dos votos.
E nisto de mentir há outro preceito revelador, desta feita saído da pena do grande estadista alemão Otto Von Bismarck: «Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça». Ele lá sabia.
Aliás, esse grande saber já no século XIV o possuía o prestigiado Álvaro Pais, que no auge da crise contra a subjugação a Castela, sendo necessário convencer o povo de Lisboa à revolta, assim aconselhava o Mestre de Avis: «Dai o que não é vosso, prometei o que não tendes, perdoai a quem vos errou».
Quem ocupa o «poleiro» aprende depressa a arte de influenciar as eleições. A necessidade de se manter no poder obriga à realização da manobra eleitoral, seja na distribuição antecipada de subsídios às associações locais, na realização de concursos para emprego público ou até no lançamento à pressa de obras de beneficiação que pelos montantes envolvidos estão dispensadas de concursos. Tudo para eleitor ver e a seguir votar.
Quem está na oposição e quer romper o cerco, afina pelo mesmo diapasão, mas com outro argumentário. Na falta de meios públicos ao dispor entra na promessa fácil, jurando, mais ou menos solenemente, realizar algo em favor dos seus destinatários.
Todos tentam, assim, conquistar votos e o essencial para o eleitor ainda é, e sempre será, verificar aquele que mais dá e que menos mente.
Estando agora próximos dois actos eleitorais, nos quais cada eleitor deve participar activamente, para não deixar que outros escolham por ele, convém ter em mente este belo ensinamento de Vergílio Ferreira, que consta do Volume III do «Conta-Corrente»:
«Em política, a “honestidade” não conta nem como estratégia nem como índice para avaliação dos outros. Ser “honesto” em política actuante é ser parvo».
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

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