Fomos à Lomba de Palheiros, pequena freguesia do lado norte do concelho do Sabugal, visitar o artesão mais conhecido e mais premiado do concelho: Francisco Gonçalves.

troncosO artesão recebeu-nos de braços abertos, defronte da sua casa, sita no centro da aldeia, mesmo ao lado da igreja matriz, numa antiga casa de lavoura, que remodelou e ampliou. Manteve porém os vestígios do passado, como as pedras de granito das paredes e as fortes portas de castanho envelhecido.
No piso térreo mostrou-nos as partes antigas da ampla casa, certamente uma das melhores da aldeia: «Aqui era a corte das vacas, ali a cortelha, além o celeiro». Tal como noutro tempo as pessoas habitam por cima, tendo Francisco Gonçalves transformado todo o piso inferior na sua oficina de artesão.
«É aqui que passo uma boa parte da minha vida, fazendo aquilo que me dá maior prazer», disse o anfitrião, enquanto nos mostrava a bancada de trabalho e as inúmeras ferramentas. É ali que, pacientemente, escava os troncos de castanheiro, e depois os transforma em magníficos e vistosos bares. «Cada peça é única, porque nunca consigo fazer duas iguais. Muitas vezes olho para um tronco quando o começo a trabalhar e imagino a forma como o vou aproveitar, mas, há medida que o trabalho avança, essa ideia vai-se alterando e o resultado final acaba por ser diferente daquilo que havia idealizado», disse-nos o artista.
As suas peças estão apinhadas por todo o lado e ele aponta cada uma, como que querendo contar a história que está por trás da sua transformação. Na sua maior parte são bares feitos de troncos inteiriços ou a partir de metades, mas também há mesas, bancos, fruteiras e até presépios de madeira.
Perante a abundância de peças, sobretudo bares, que aguardam por um destino, sugerimos-lhe que bem precisa de participar em feiras de artesanato. Mas perante isto o artesão demonstra-nos desalento: «Já não tenho vontade de andar pelo país a correr as feiras, como já fiz». Depois fala-nos na falta de apoios para os artesãos: «Não compreendem a importância do artesanato para o concelho. Ainda há dias participei na Festa da Europa no Sabugal, onde estive todos os dias com outros artesãos do concelho. Num dos dias realizaram uma caminhada e no final foram centenas de pessoas a comer para o rio, tudo à custa da Câmara. Todos foram chamados menos nós, os artesãos, que ali estivemos todos os dias sem praticamente fazer negócio, mas apenas para cumprirmos a obrigação».
Como artesão representou o concelho por muitas feiras e exposições, correndo o país de lés a lés: «Sou artesão certificado, e recebi já muitos prémios e diplomas. Fui premiado na Feira Internacional de Artesanato, em Lisboa, nas edições de 1997 e 2001, e também recebi prémios na Foz do Douro, em Seia e em Vila Velha de Ródão».
Percorreu praticamente todo o país e não apenas para expor as suas peças: «Quando me desloco para qualquer exposição, o que me vai na alma não é só participar, mas também consultar arquivos e saber algo mais sobre cada terra e procurando sobretudo saber se por ali passaram sabugalenses que tivessem ficado conhecidos». Dando disso exemplo estendeu-nos a cópia de uma revista: «Tirei esta fotocópia a uma revista em Barcelos, porque fala de um sabugalense ilustre, o Dr Mourão Campos, que foi médico e ali viveu e deixou obra. Leiam e, se acharem bem, falem sobre esse grande homem no vosso blogue».
No final da visita Francisco Gonçalves, ciente de que as eleições autárquicas estão à porta e que os candidatos andam já à caça do voto, deixou-lhe um conselho: «Tenham em conta que um povo sem cultura ou que não a preserva é como um corpo sem alma. Cultura, artesanato, turismo e gastronomia, são coisas indissociáveis».
plb