Acto Único com três cenas. Os tempos são actuais e passam-se na capital de Portugal. Personagens: Joana (psicóloga), marido, Campos e Manuela. Cenário: sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

João Valente

Cena I – Joana, Marido (vestidos para a cerimónia e prontos para sair). Uma paciente (Que logo sai, à porta do fundo).
Joana – Sim, senhora sim, senhora! Avie essa receita. Maracamos nova sessão para daqui a oito, pela mesma hora.
Paciente – E estes comprimidos são para tomar como de costume? (exibe o papel da receita.)
Joana – Reduz a dose… meio cumprimido ao deitar e chega!
Paciente – Concerteza senhora doutora. (sai.)
Marido – (Entrando por uma porta interior e sentando-se.) – Sempre entras nas listas desta vez?
Joana – Duvido…
Marido – Porquê?
Joana – O Louçã ainda está de trombas por causa da campanha!
Marido – Para que te meteste nessa treta?
Joana – (Ainda passeando.) – E quem imaginava que o Soares estava acabado?
Marido – Bem te avisei…
Joana – Se não for no Bloco, vou noutro… Verás!
Marido – Fia-te na Virgem e não corras.
Joana – Estamos atrasados para sair…
Marido – (Consultando o relógio de mesa.) – Há duas horas e dois minutos.
Joana – (Embonecando-se ao espelho.) – Creio que não chegamos a tempo.
Marido – E o táxi na porta há tanto tempo? Vamos?
Joana – Vamos. (Vão saindo. Batem palmas.)
Ambos – Bateram.
Marido – Quem é?
Campos – Sou eu.
Joana – Eu quem?
Campos – (No mesmo.) – Um amigo.
Joana – Entre quem é.
Marido – (Espreitando à janela.) É o Campos das obras públicas! Conheces… (Entra Campos. Pisa macio e fala descansado.)

Cena II (Os mesmos e Campos)
Campos – (À porta do fundo.) – Dás licença, Joaninha?
Joana – Entra. (Vai outra vez por a mala na secretária.)
Campos – (Entrando e sentando-se numa poltrona que deve estar no meio da cena.) – Não te incomodes. Estou muito bem. E tu como tens passado desde a campanha do velho?
Joana – Bem, obrigado. O que pretendes?
Campos – Ah! Passava na rua… Vais no bloco?
Marido – Que bloco?
Joana – O de esquerda, qual havia de ser?
Joana – Não.
Campos – Pois estás com azar! (Sinais de impaciência em Joana e Marido.) O Louçã ainda não esqueçeu as presidenciais… (Recosta-se na poltrona.) Estou a ver…
Joana – (Interrompe-o.) – Ó Campos, temos muita pressa e não, podemos perder tempo. Íamos sair quando chegaste…
Campos – (Erguendo-se.) – Nesse caso… Fica para outro dia… Eu vim só trazer um recado, mas… (Cumprimenta.) Joana… Caro amigo… (Vai saindo.)
Joana – Vem cá; explica já agora o que pretendes.
Campos – (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, sibilino.) – Somos amigos…
Joana – Nem tanto…
Campos – Há um lugar em aberto na lista por Coimbra… Que me dizes?
Joana – Digo-te o quê?
Campos – Estarias interessada?
Joana – E tu a dar-lhe!
Marido – Deixa-o para lá. (Vai para junto de Joana.) Que maçador! Não chegaremos a tempo.
Joana – E quem faz o convite?
Marido – (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
Joana – Estamos com pressa…
Campos – O nosso primeiro… É evidente…
Joana – Não sei… Assim de repente… Bem vês!…
Marido – (Olhando o relógio.) – Estamos atrasados.
Campos – Se aceitares… Arranja-se mais um tacho de bónus… Que dizes?
Joana – Não sei…
Marido – (Olhando o relógio.) – Que seca!
Campos – Assim na tua área… Que achas?
Joana – Passa bem.
Campos – Mas, Joana…
Marido – Viva. (Volta-lhe as costas.)
Campos – Olha que te arrependes… (Saída falsa.)
Joana – Safa!
Marido – Vamos, Vamos quanto antes! pode vir outro… (Vão saindo.)
Campos – (Voltando.) – Já agora…
Joana – Outra vez?
Marido – Assustou-me até!
Joana – (Agarrando a mala.) Que pretendes agora?
Campos – E que dizias com um lugarzinho no governo também?
Ambos – Irra!
Campos – Tableau. (Desaparece.)

Cena III (Joana e Marido)
Joana – Vês, homem; vês como uma pessoa perde a cabeça?
Marido – Sim, sim, mas vamos, anda daí!
Joana – (Caindo na poltrona.) – E que dor de cabeça me fez este gajo!…
Marido – Espera… vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)
Joana – Depressa… depressa, homem! (O marido esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem… chega… aliviou… Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (O marido deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a Joana.)
Marido – Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me das chaves. (Entra à direita baixa.)
Joana – (Falando para dentro.) Que demora, homem, que demora! Ainda há- de vir mais alguém, verás! (Passeia.) Então não achas essas chaves! Aí! minha cabeça! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)
Marido – (Dentro.) – O meu frasco de água de colónia!
Joana – (Dentro.) – Que pena!
Marido – (Dentro.) – Ah! cá estão as chaves! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)
Joana – Já estou cansada. (Procura na mala.) Não tenho lenço.
Marido – Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)
Joana – Vê na cómoda!
Marido – (Voltando com um lenço na mão.) – Toma, toma… Gaita! (Dá-lho.)
Joana – Vamos! (Encaminham-se para a porta. Batem à porta.)
Ambos – Não!…
Joana – (Fora de si.) – Não estou em casa!
Manuela – (Aparecendo.) – Dão licença?…
Joana – (Caindo extenuada na poltrona.) – Uf!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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