Quando eu era um adolescente, ouvia muito esta frase: «Portugal não está preparado para a Democracia». Escusado será dizer que isto não passava de propaganda do Estado Novo, para se perpetuar no poder. A própria Europa falava da «Tradição Ibérica», desse destino, dessa fatalidade que oprimia os povos ibéricos: Autoritarismo, Catolicismo e Semi Feudalismo.

António EmidioLibertámo-nos, portugueses e espanhóis, dessa «Tradição». Mas como todas as tradições, esta também deixou as suas marcas nas sociedades portuguesa e espanhola.
Em Espanha, a crer na comunicação social, ainda há casos de tortura exercida sobre activistas e separatistas bascos. Nas últimas eleições ao Parlamento Europeu, houve uma tentativa por parte do governo de ilegalizar um partido político. O Rei, que é o Chefe de Estado, foi nomeado para o cargo pelo ditado Francisco Franco, nem o povo espanhol, nem organismo democrático nenhum, teve qualquer intervenção nessa nomeação. A igreja católica, luta desesperadamente para não perder os seus privilégios e influências que ainda vêm do tempo da ditadura. O Partido Popular está cheio de falangistas, de pessoas com o pensamento da Falange (partido único do regime franquista), Manuel Fraga Iribarne é um exemplo. Teve quase tanta influência na Democracia, como teve enquanto foi ministro de Franco. O 23 de Fevereiro de 1981 – 23 F – uma tentativa de derrube da Democracia espanhola perpetrada por militares e guardas civis. A «Tradição» está bem viva em Espanha.
E em Portugal? Não se faz notar com tanta intensidade. Não temos problemas de separatismo, não tivemos uma sangrenta guerra civil, e isso é o suficiente para que não haja uma radicalização política. Também todos os nossos órgãos governativos foram eleitos democraticamente. Onde se faz sentir essa «Tradição»? Na elite tradicional que controla o poder. Essa elite vem do Estado Novo, mas teve influência no seu derrube, não na Revolução, que não queria, preferia uma evolução. Lutou dentro dele para uma transformação política, económica, e social. Se o fez, foi porque os seus interesses estavam ameaçados pela estagnação política e económica. Sabia, que só a entrada num regime liberal, e posterior industrialização e modernização do País lhe trariam riqueza, e também liberdade para intervenção política. Tem o poder económico, e dos media, com esses dois poderes controla o poder político.
Não é por acaso, nem é de estranhar, que o vencedor do concurso, «o português mais ilustre» (penso que se chamava assim) tenha sido Salazar, falou a «Tradição».
O leitor(a) já alguma vez pensou no seguinte? Em 1913 e 1914, por exemplo, Portugal vivia em Democracia, havia liberdade e partidos políticos. Em 1973, passados 60 anos, em Portugal não havia Democracia, nem liberdade, nem partidos políticos, o que significa que a história não é linear, é feita de avanços e retrocessos. Começa a ouvir-se o seguinte: «Para um país progredir economicamente não necessita de Democracia», dando-se o exemplo da China.
Não me farto de repetir que não chegámos ao fim da história, e o seu companheiro de sempre, o passado, pode um dia fazer a sua aparição…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

Anúncios