No geral os nossos campos estão em acalmia. A desertificação e o abandono da lavoura no interior levaram a que o mato crescesse, sendo agora presa fácil para as chamas que lavram a seu bel-prazer. O homem, entretanto, refugiou-se nas cidades onde não dá mostrar de querer sair.

Ventura Reis - TornadoiroQuando eu era rapazola os campos andavam pejados de gente. A terra era cultivada até ao limite e havia um constante, e às vezes infernal, bulício do nascer ao pôr-do-sol. Soavam, intermitentes, as campainhas do gado, chiavam os carros de vacas com veio de freixo, gritava a canalha na guarda dos animais e a gente graúda no decurso dos trabalhos agrícolas. Se era no verão, cantavam os ranchos de ceifadores e de sachadores e as noras gemiam ao rodar, tocadas por burros ou vacas.
Confesso que dava gosto andar pelos campos, embora seja doloroso imaginar a vida dos homens e mulheres que antigamente trabalhavam de sol a sol para apenas garantirem a sobrevivência.
Nos anos 70 do século passado, deu-se uma transformação neste frenesim: A introdução dos motores de rega, que massivamente substituíram as noras e as picotas. Isso trouxe ainda mais barulho aos campos. Era um som ensurdecedor quando se passava pelas veigas e se ouvia o matraquear constante dos pequenos motores a dois tempos, movidos a petróleo, que sugavam água das ribeiras, poços e presas.
Eis entretanto que os campos foram verdadeiramente abandonados, deixando de se cultivar as melhores nesgas de terra. O mato cresceu por todo o lado e as silvas e as giestas substituíram os feijões, os batateiros e o centeio. Agora tudo é sossego.
Há alguns anos, no verão, dei uma volta pelo campo, querendo espairecer e matar saudades, percorrendo o vale da ribeira de Palhais, de Pouca Farinha à Quinta do Costa. Digo-lhes que tudo ali é silêncio, salvo o som de algum camião que passa na estrada.
Deixaram acabar a vida intensa que noutro tempo se vivia nos campos, de onde de resto as pessoas garantiam o seu ganha-pão. Embora vivendo com privações, tudo era de superior qualidade.
De caminho apanhei uma maça bichosa de uma macieira que ali restou. Pois digo-lhes que me soube melhor essa maça já furada pela lagarta, do que as que usualmente como, vindas do supermercado, todas muito reluzentes e bem polidas.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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