John Huston está a ser alvo de uma retrospectiva na Cinemateca. Na semana passada foram projectados três filmes curiosos do realizador de «Relíquia Macabra»: três documentários rodados para o Governo dos EUA durante a II Guerra Mundial.

Pedro Miguel Fernandes - Série BEstes três documentários são bons exemplos de como o cinema, tal como outras artes, foi utilizado como propaganda em tempos de guerra, com o objectivo de moralizar a população. No caso de John Huston os três filmes são completamente diferentes, pois cada um aborda um tema especifico e de maneira diferente: desde as batalhas nos céus do Pacifico ao regresso a casa dos soldados com problemas psiquiátricos resultantes do conflito, passando pelas batalhas em território italiano.
O primeiro a ser rodado, em 1943, foi «Report From the Aleutians», onde a câmara acompanhou um grupo de aviadores da Força Aérea norte-americana de serviço no Alasca que tinham como missão destruir as bases japonesas do Pacifico que estavam a começar a ganhar força naquela região para atacar os EUA. Aqui o documentário foca a preparação e o desenrolar de uma das missões, explicando como é que os soldados passavam o tempo e alguns aspectos que nos ensinam bem como era uma missão naquela altura, pois os últimos minutos do filme são passados a bordo dos aviões de uma esquadrilha durante o ataque.
Dois anos depois, em 1945, John Huston volta a ser contratado, desta vez para filmar o avanço das tropas norte-americanas em Itália. Em «The Battle of San Pietro» pode-se dizer que o realizador entra mesmo na acção, pois muitas das filmagens foram feitas durante ataques reais o que colocou em risco a vida do realizador. O próprio admitiu posteriormente que este período o marcou para sempre, deixando-lhe sequelas na memória. Tal como o próprio nome do filme indica, a acção é uma batalha pela conquista de San Pietro, uma pequena vila italiana que tinha de ser conquistada devido à sua posição estratégica. Neste caso o documentário é um pouco mais forte, pois as imagens da batalha mostram a verdadeira dificuldade das tropas em avançar, e é comum ver explosões muito perto da câmara e os corpos de alguns soldados mortos em acção.
O último filme desta trilogia de documentários de guerra filmados por John Huston é «Let There Be Light». Este é o mais polémico dos três, pois esteve proibido pelo próprio Governo dos EUA e apenas nos anos 1980 pôde ser visto. Aqui o cenário não é o teatro de guerra, mas sim um hospital psiquiátrico, para onde eram enviados os soldados com problemas psicológicos, que segundo dados oficiais foram 20 por cento do total das baixas durante a II Guerra Mundial. Em «Let There Be Light» contam-se as histórias de um grupo de militares que sofreu os horrores do conflito e alguns métodos utilizados para os ajudar a voltar a uma vida normal. O que terá causado alguma polémica na altura foram os tratamentos utilizados e algumas imagens mais fortes que surgem no filme. Talvez as autoridades tivessem ficado arrependidas do trabalho final por mostrar a utilização de algumas técnicas pouco usuais e acabaram mesmo por proibir o filme. As razões oficiais nunca foram conhecidas.
John Huston foi apenas um dos vários realizadores norte-americanos a filmar a II Grande Guerra para propósitos de propaganda. Outros também foram contratados, mas optaram por fazer filmes ficcionados, sendo estes três os poucos documentários do conflito filmados por um grande nome da Sétima Arte.
«Série B», opinião de Pedro Miguel Fernandes

pedrompfernandes@sapo.pt

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