Trancoso é um dos sete concelhos do distrito da Guarda que se incluem na denominada sub-região da Raia, fronteiriça com Espanha. A Norte da capital do distrito, as terras de Trancoso estendem-se por uma paisagem planáltica de granito, cortada pelo rio Távora, conhecida por Riba-Côa ou Terra Fria Beirã.

José MorgadoTRANCOSO – Espectadora excepcional de importantes passagens da história de Portugal, Trancoso mantém-se como uma fonte de dinamização na Beira Interior, uma área desde há muito em luta com a falta de recursos e a desertificação dos seus campos e aldeias.
Os primeiros vestígios humanos no concelho têm cerca de 4000 anos. Um primitivo castro pastoril deu lugar a um posto defensivo, que, com a chegada dos romanos, foi aumentado e reforçado. Já no século X, o castro tinha-se convertido em castelo e estas terras eram disputadas por mouros e cristãos. Muitas foram as arremetidas de uns e outros. Frentes às muralhas de Trancoso bateram-se homens como Almançor, Fernando Magno, Martim Moniz e D. Afonso Henriques, que resgatou Trancoso após ter sido arrasada pelos muçulmanos em 1139. Depois da batalha, D. Afonso Henriques terá tomado duas determinações: construir o convento de Tarouca e usar o título de Rei de Portugal.
O Castelo de Trancoso ficou definitivamente ligado à cristandade em 1160, pelas armas, uma vez mais, de D. Afonso Henriques. Mas as disputas com Castela continuaram, e a cercania com a fronteira (70 km até Vilar Formoso) reservaria um papel relevante aos habitantes de Trancoso nas guerras com o país vizinho. Durante resistência às tropas de Napoleão, o desafortunado general Beresford estabeleceu quartel no casario de Trancoso.
BandarraNão obstante, não só combates viu esta povoação. A vila beirã assistiu também ao casamento de D. Dinis com Isabel de Aragão, em 1282, e ao nascimento da fama de Gonçalo Annes, por alcunha o Bandarra. Sendo Trancoso terra rica em personagens lendárias, é que este sapateiro da primeira metade do século XVI, poeta e profeta, o que mais alargou através dos séculos a sua fama. Em palavras de Pessoa «(…) este cujo coração foi não português mas Portugal».
O Bandarra, assim como muitos membros da vasta e influente comunidade judia, chegou a ser julgado pela Santa Inquisição. A vila histórica de Trancoso, abraçada pelas muralhas guarda marcas da importância dos judeus na vila e do seu forte desenvolvimento comercial. As casas da velha judiaria ainda exibem as duas portas características, algumas com símbolos hebraicos sobre os marcos: a mais larga para fins comerciais e a estreita para uso doméstico.
A melhor ocasião para visitar Trancoso é em Agosto, aquando da famosa Feira de S. Bartolomeu. Os ares de Medievo que emanam das singelas ruas da vila, com o seu castelo e muralhas e o pelourinho manuelino, junto à Igreja de S. Pedro, classificados Monumento Nacional, parecem reviver quando atravessamos o arco das Portas de El-Rei e caminhamos pela rua conhecida por Corredoura, que nos leva até ao Largo Francisco Ferreira, o centro da via. Lojas e cafés acompanham os numerosos transeuntes que fazem fervilhar os velhos arruamentos. Magnifica ocasião para saborear as especialidades da gastronomia local: o cabrito assado, o bacalhau à S. Marcos, o ensopado de míscaros ou as enguias à S. Bartolomeu. Nos doces são célebres, as «sardinhas doces de Trancoso».
«Terras entre Côa e Raia», opinião de José Morgado

morgadio46@gmail.com