Elaborar um programa de acção não devia ser demasiada metafísica para qualquer candidato; mas falta em pragmatismo o que sobra em teoria aos programas dos candidatos à Câmara do Sabugal.

João ValenteEu, leitor amigo, habituado por formação à liberdade e por dever de ofício a dizer o que penso com clareza, vou direitinho ao assunto:
O concelho só teve peso reivindicativo junto do poder central quando fez lobby na histórica «Irmandade de Riba-Côa», com os restantes concelhos da região. Isoladamente nunca teve voz. Por isso tem que concertar estratégias com os concelhos limítrofes na resolução dos problemas comuns.
E os seus problemas, já toda a gente sabe, são a baixa qualidade de vida, falta de oportunidades de emprego, que levam à emigração e consequente desertificação e envelhecimento da população.
A fixação da população obtém-se pela qualidade de vida. A qualidade de vida surge com mais rendimento disponível. O rendimento com mais emprego e negócios. As oportunidades de empregos e negócios com mais necessidades de consumo.
A população residente tem um baixo rendimento e portanto nenhuma capacidade de consumo, o que torna a actividade empresarial incipiente e de pouca importância. E não existindo actividade empresarial também não há empregos e criação de riqueza. E sem riqueza não há qualidade de vida. É um ciclo vicioso!
Não havendo consumo interno que dinamize a economia do concelho, tem de se captar consumo externo. É uma verdade de la Palisse!
Temos para vender a vizinhança com Espanha, o património cultural (capeia, romaria dos «encoratos» a Sacaparte, etc), gastronómico (bucho, enchidos, castanhas, ciclo do linho, do azeite, do pão), Histórico (os cinco castelos, sítios arqueológicos de Carya Tallaya e Sabugal Velho, aldeias históricas de Sortelha, Vila Touro, Alfaiates, Vilar Maior), natural (rio côa, Cesarão, barragem do Sabugal, trilhos de contrabando).
Os programas dos candidatos falam em combate à desertificação, melhorar a qualidade de vida da população, ajudar as empresas. Isso também propuseram os candidatos e os presidentes anteriores e foi o que se viu. Parra, muita; uva nenhuma! Fogo bonito; no fim, canas…
Pois meus amigos, eu cá se fosse candidato, definiria umas quantas medidas concretas, baseadas nas potencialidades que temos para oferecer, para atrair consumo, gerar oportunidades de emprego e indirectamente aumentar o rendimento disponível da população e por conseguinte a estabilidade demográfica.
Apenas alguns exemplos, de iniciativas que, enquadradas numa estratégia global, poderiam atrair consumo e criar oportunidades de emprego:
– Museu do linho em Aldeia Velha;
– Trajecto eco-turístico em Vilar Maior descendo as fragas do castelo ao rio;
– Oficinas de artes tradicionais em Alfaiates conjugadas com a feira mensal;
– Museu do Azeite em Santo Estêvão;
– Fluviário no Sabugal e praia artificial ou piscinas naturais. Provas de canoagem;
– Dinamização dos pólos arqueológicos de Caria Talaya e Sabugal Velho;
– Uso dos poderes administrativos para recuperar os núcleos urbanos históricos;
– Feira agrícola no Soito conjugada com certame de Capeias divulgado a nível nacional e internacional;
– Prova desportiva de BTT e de hipismo a nível nacional da rota dos cinco castelos;
– Comemorações anuais da batalha do Graveto;
– Feira medieval em Sortelha e feira de gastronomia associada à «Aldeia das sopas»;
– Definição, demarcação e sinalização de alguns trilhos pedestres e para ciclo turismo aproveitando as veredas de contrabando, leitos dos rios e belezas paisagísticas;
– Feira de Gastronomia no Sabugal associada ao bucho raiano;
– Bienal de artes e certame de teatro no Sabugal;
– Revista mensal de qualidade divulgando a cultura e tradições da região;
– Criação e divulgação da marca «Transcudânia» em todos os produtos e actividades ligadas à região;
– Formação de uma equipa multidisciplinar para criação, coordenação e divulgação de projectos turísticos, culturais e desportivos;
– Coordenação de políticas com os restantes concelhos limítrofes, reeditando a antiga irmandade dos concelhos de Riba-Côa, definindo um espaço geográfico próprio no contexto regional, nacional e internacional;
– Campanha agressiva de marketing divulgando todas estas iniciativas e projectos, feita por uma equipa de profissionais.

Isto é, amigos leitores, a diferença entre a teoria e o pragmatismo: Reconhecer que não há recursos e tempo para acudir a tudo; estimular a economia do concelho com iniciativas pontuais e bem orientadas ao consumo externo. A iniciativa privada indo ao encontro às necessidades de consumo, criará o emprego e a riqueza de que precisamos.
Se assim não acontecer… Ramo de oliveira, caldeirinha e água benta, aos pés!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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