Estando a época das capeias arraianas a iniciar-se nas aldeias do concelho do Sabugal, e quando se fala no registo dessa tradição única do mundo, resolvemos compilar algumas citações de livros que falam sobre a tourada com forcão. Não há dúvida que esta é, a par com a do castelo de cinco quinas, a nossa melhor imagem de marca.

Capeia ArraianaA assistência põe-se de pé, grita, chora e atira imprecações ao touro: Ai o meu homem que já o mataram! Acudam ao desinfeliz que já o levou o diabo! Jesus, Jesus, o burro do meu filho morto! Eh vaca excomungada, raios te partam, estupor!… Passado o lance, volta o sossego, a alegria, o burburinho.
Carlos Alberto Marques, in «Algumas Notas Etnográficas de Riba Côa».

Ainda hoje se fala na fatídica tarde em que o touro matou um rapaz, subindo para tal alguns degraus duma escada, puxando-o com os dentes para o curro e estoirando-o depois.
Franklim Costa Braga, in «Quadrazais, Etnografia e Linguagem».

Quando a gente de Forcalhos não for capaz de dominar o touro, os moços das aldeias próximas pedem para que os deixem correr esse touro no dia da sua festa, numa manifestação de emulação sócio cêntrica, habitual entre grupos vizinhos.
Ernesto Veiga de Oliveira, in «Festividades Cíclicas em Portugal».

Em toda a geografia ibérica e mesmo mundial o Forcão apenas existe numa estreita faixa de terreno limitada ao norte pelo rio Côa, ao sul pela serra da Malcata, o Ocidente pela serra da Estrela e a oriente pela fronteira de Espanha.
E quando fixamos o limite ocidental na serra da Estrela, é porque nas aldeias do chamado Vale de Estrela ainda se realizam curiosas corridas à vara larga que se podem talvez considerar como uma variante degenerada da corrida do Forcão.
Fernando Teixeira, in «O Touro e o Destino».

O boi, num momento defensivo, de recuo, encontra o portal velho de uma loja, despede-lhe um tremendo coice, a porta cai em estilhas, e do portal arrancado irrompe… uma porca a grunhir. Hilaridade geral. Uma voz grita, aflitíssima:
– Ai, a minha «marrana», que lá se me vai!…
Abel Botelho, in «Uma Corrida de Toiros no Sabugal», do volume «Mulheres da Beira».

– Senhora das Neves, acudi ao forcão!
– Nossa Senhora das Neves, salvai-os!
Do torvelinho de poeira, que enfarinha os espectadores, saem rapazes ilesos ou feridos que marinham, rápidos, pelas cordas presas aos fueiros.
Nuno de Montemor, in «Maria Mim».

O forcão fica pronto e encostado num dos cantos da praça, a aguardar o dia. A canalha visita-o com uma alegria feita de gozo antecipado. Tenta levantá-lo. Põe-se à galha, grita «eh boi!».
Adérito Tavares, in «A Capeia Arraiana».

Às galhas da frente pegam dois rapazes que se hajam notabilizado pela força física. A frontaria do centro confia-se a gente simultaneamente forte, corajosa e de bom engenho. Os restantes postos distribuem-se um pouco à touxe-mouxe pelos voluntários, em todo o caso rapazes valentes e forçantes. Lugar-chave, todavia, é o de rabejador, autenticamente chefe, comandante e capitão da empresa.
Manuel Leal Freire, in «Ribacôa em Contra Luz»

O rabeador eleva ou abaixa o triângulo, auxiliado pelos outros homens, conforme a direcção que o toiro toma, e tenta assim impedir que o toiro salte para cima do triângulo ou se meta por baixo.
J. Leite de Vasconcelos, in «Etnografia Portuguesa».

A parte mais curiosa do folguedo consiste no forcão, espécie de grade, formada de um grande ramo ou pernada de carvalho, com uma grossa vara onde os galhos se atam e afastam, dando-lhe a forma triangular.
Joaquim Manuel Correia, in «Memórias sobre o Concelho do Sabugal».

E eis que a porta se abre, dando passagem ao famoso touro, que irrompe pela praça dentro como um furacão.
Na praça, só o forcão fortemente guarnecido. Todos os demais se empoleiraram o mais alto que puderam. Até os capinhas.
José Martins, in «Drama sob as Nuvens».

Espectáculo único que bem traduz a audácia e a força das gentes de Riba-Côa».
Virgílio Afonso, in «Sabugal, Terra e Gentes».

A tourada raiana é um espectáculo que as gentes da região apreciam de tal modo que, durante o verão, todas as terras realizam a sua, e, em muitos casos, em jeito de rivalidade, procuram até arranjar mais do que uma.
«À Descoberta de Portugal», edição das Selecções do Reader’s Digest.

São os jovens a descer à arena, manobrando um complicado aparelho feito de toros de madeira (o forcado) para manter o boi à distância. E ai do forasteiro que se atreva a deitar a mão a uma das pegas do forcado sem para tal ter sido convidado…
«Guia de Portugal», edição do jornal Expresso (1995).

Os foliões que vão pegar ao forcão mantêm-se ao largo até que se anuncie a saída do primeiro touro mas, alguns, para garantia de que têm para onde fugir, vão ocupando as escadas do pelourinho e um fanfarrão, para mostrar a sua destreza, conseguiu mesmo subir até ao cimo desse monumento que é o mais alto de Portugal numa só pedra.
Porfírio Ramos, in «Memórias de Alfaiates».

Meu pai, que foi um grande aficionado das capeias, sempre que a elas se referia, não se esquecia nunca de falar em quatro toiros, certamente por muito o terem impressionado devido à sua grande bravura, cujos nomes eram: o Carreto, o Galgo, o Gravato e o Cinzento.
José Manuel Lousa Gomes, in «Memórias da Minha Terra».
plb