A 24 de Junho o São João é a segunda da tríade de festas populares de vulto que acontecem neste mês, sucedendo ao Santo António (dia 13) e precedendo o São Pedro (dia 29). Porém este ano no Sabugal a festa acontece antecipadamente, com o «carvalho» a ser queimado no dia 22 de Junho.

O «carvalho» em preparaçãoO São João é sobretudo festejo profano, pelo muito que está ligado à cultura popular e às tradições a que se associa.
Perde-se no tempo a origem do arraial de São João na vila do Sabugal, onde desde há várias décadas surge como a festa popular de maior impacto.
Segundo o digno etnólogo Joaquim Manuel Correia, os festejos eram marcados pela simplicidade mas impunham-se pelos aspectos curiosos que continham. A preparação da festa começava algumas semanas antes, com os rapazes e raparigas a colher rosmaninhos e bela-luz, de noite «para que os donos dos prédios não ralhem», e a ensaiar cantos e preparar violas, armónios pífaros e adufes. Nas ruas principais da vila erguiam-se pinheiros, que se vestiam de rosmaninho, deixando-lhes algumas bombas no interior. Para maior adorno no «carvalho», nome dado ao pinheiro vestido de rosmanos, colocavam-se bandeiras e encimava-o um cântaro de barro com um gato no interior. Na noite de São João ranchos de rapazes e raparigas percorriam a vila, de «carvalho» em «carvalho», cantando e bailando. À meia-noite lançavam fogo aos «carvalhos», com a malta nova a entoar canções e a bailar à volta das fogueiras. Ao mesmo tempo soavam as explosões das bombas e o cântaro caía do alto e esboroa-se no chão, com o gato a fugir assustado, e os espectadores a rirem à gargalhada. E o arraial prolongava-se pela noite dentro.
Ao São João ligam-se muitas superstições, às quais o povo dava a maior atenção e importância.
As pessoas eram muito apoquentadas pela sarna (doença contagiosa originada por um ácaro, que provocava muita comichão) e pelas maleitas ou sezões (paludismo). Acreditava-se que saltando as fogueiras de São João se curavam esses males. Ao mesmo tempo que se saltava dizia-se, de forma irónica (algumas variantes):
– Sarna em vós, saúde em nós;
– Sarna no João, saúde no meu coração;
– Sarna em quem está à roda, saúde em mim, que chego agora;
– Sarna nos animais, carregados de atafais.
Dormir sob a orvalhada da noite de São João também cura a sarna e os sezões.
O mesmo efeito tem ir tomar banho ao Côa nessa noite.
Na noite de São João, se uma rapariga pretende conferir se um rapaz lhe quer bem deve escrever o seu nome numa folha de figueira e deixá-la ao luar e verificar de manhã se ainda está viçosa.
Menino quebrado (com hérnia) pode curar-se na manhã de São João, levando-se junto a um carvalho novo, que se esnoca. O menino toca-lhe com a mão e os adultos recitam:
Toma lá Maria, toma lá João
Se este Menino é cobrado,
Deus o ponha são.
O tronco rachado ata-se com a camisa da criança. Se o carvalho não secar o menino fica curado.
As superstições ligadas ao São João existem um pouco por todo o País. A cura da sarna é aspecto geral, para o qual as intervenções do Santo parecem ser o melhor remédio. O elemento unificador nas várias superstições é o orvalho da noite de S.João, pelo qual o povo tem o maior apreço, por conceder curas milagrosas. Mas a virtude do fogo e defumadoiro do rosmaninho e da bela-luz, é originalidade da região do Sabugal.
plb