A margem direita do Côa só foi «de jure» encorporada em Portugal após o tratado de Alcanizes.

João ValenteEsta faixa de território foi sempre região de fronteira; primeiro da nação lusitana, depois do reino suevo, depois do condado Portucalense, reino de Leão e de Portugal. Daí que tenha sofrido várias influências e conservado várias particularidades nos costumes e língua.
A Língua falada foi um misto entre o leonês e galaico, que vários filólogos (Lindley Cintra, Leite de Vasconcelos, etc.) estudaram e que, sendo falado para além da fronteira, ainda tem remeniscências no malaguenho do Vale do Elges e no falar característico de Almedilha e da Bouça, que são mais parecido com o português do que com o castelhano.
No entanto, a linguagem tabeliónica do território, pelo menos dos documentos que se conhecem, sempre foi o Galaico, pela razão de que o leonês raramente era utilizado na escrita (o próprio Afonso X escreveu as «Cantigas de Santa Maria» em Galaico) e assim continuou depois da reunião de Leão com Castela a partir de 1230.
Existem alguns documentos do período de dominação leonina, como os forais e cartas de povoação e doações dos quais os mais conhecidas são as do cartório do convento de Santa Maria de Aguiar, que exerceu durante muito tempo grande influência cultural no território de Riba-Côa, e se encontram actualmente na Torre do Tombo.
Um desses documentos em galaico é interessante porque é anterior ao tratado de Alcanizes e refere muitos locais da actual Riba-Côa (como Caria Talaia na Ruvina, Alfaites, Vila Bôa, Vilar Maior, Castelo Bom, Caria, Vila Bôa, Freineda, Sabugal e Castelo Rodrigo) atestando o seu florescente e antiquíssimo povoamento, porque se refere a uma mesma família com bens em todo o território de Riba-Côa e revelando que a influência portuguesa em Riba-Côa é anterior ao tratado de Alcanizes; trata-se da partilha da meação de Maria Gonçalves com seus filhos (1266), que, resumidamente, transcrevo:
«Conoçuda cousa a todolos que esta Carta ujrē Como eu maria Gonçaluez fiz tal particiõ com meos filos e com esteuā suarez meo gĕro A meo pagamēto e a seu deles. Recebj por mja mejade nas herdades que aujia… meeo marido dō Mēedo. Coujē A saber quanto aujamos em Sabugal e en seu termjno. Saluo de Caria Talaya. E quanto aujamos en Alfayates e em seu termjno e a torre com seu termino. Esto sobredito receby eu Maria gonçalues por mya meyade. E por esto quito a meus filos. E recebē na outra sa meyade quanto al eu auya com meo marido dō Mēedo en Caria talaya e en termjno de ujlar mayor e de Castello bóó e as fresnedas com todo seu termjno e com quanto a ellas pertence e quanto aujamos en Castell rodrigo e en seu termjno e com todalas outras cosas que aujamos en Portugal e quanto aujamos desde vilar Major ata nas aguas de doyro en Regno de Leō…» […] Esta partila e esta cōnposiciō sobredita foy feyta.iiij feyra.iiij.dias andados de Mayo nos palacios de vila bōa a pagamento danbalas partes. Perdante Martin Domingez de Sabugal e perdante Pasqual perez canonigo de badaloz e perante Pedro esteuanez dalfayates que forō ties desta partició e desta conposiciō e desta Auenencia asi como sobredito e per mandado dos alcaldes de Sabugal. Ts…», Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, Maço X, n.º 18.
Um pormenor delicioso nesta escritura, atesta a fertilidade e disseminação das famílias entre o território de Riba-Côa e de Portugal:
«… e eu Maria Gonçalves outorgo sou pēa de .C. mareuedis pólos meos filos que nō son de edade e por Maria mēedez meã fila que os faça outorgar esta particiō quando forē de edade. E eu esteuā suarez me obligo e outorgo so pea destes .C. mareuedis sobreditos que eu faça outorgar a mīa moler Chamoa mēedez esta particiō ata dia de San Martino primeiro que uē per ella ó per carta aberta Seelada do selo de Celorico e depoys que chegar Chamoa mēedez a otorgar esta particiō seer quite desta pea destes .C. mareuedis e darē me mya cart […]E en outro dia .v. feyra .v.dias andados de Mayo Eu Meen Gonçalves com meo filo fernā mēedez e por meos filos aqueles nō son edade e com Esteuā suarez meo gēro uēmos a Sabugal e nas mias cajsas outorgamos esta particō…»
Da escritura depreende-se que a família se encontrava espalhada por Riba-Côa e Portugal, pelo que se reuniu no Sabugal, onde Maria Gonçalves tinha casas, para acordarem na partilha.
Da escritura depreende-se ainda, que Maria Gonçalves e o marido D. Mendo, tinham património disseminado por toda a Riba-Côa e vários filhos menores e três maiores; Maria Mendes, que ficou por fiadora dos menores, Fernando Mendes e Chamoa Mendes, casada com Estevão Soares e a residir em Celorico da Beira.
Mas sobretudo o que se depreende desta escritura, é que a fronteira entre Portugal e Riba-Côa era apenas uma linha imaginária, tal como o passou a ser depois a fronteira entre esta e Espanha.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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