No meu tempo de catraio tinha, como os demais garotos da minha idade, um medo tenebroso aos agentes da autoridade e as pessoas em geral tinham-lhes um respeito absoluto. Nos dias de hoje tudo foi alterado, porque a autoridade deixou de se impor e com isso deixou também de ser respeitada.

Ventura Reis - TornadoiroUm polícia ou um guarda-republicano eram antigamente pessoas investidas de uma autoridade quase absoluta. Eu fui educado dentro dessa ideia, a pontos de ter fundado receio de passar defronte do posto da GNR da minha terra.
É que os guardas, ao contrário do que hoje acontece, eram homens de respeito. Usavam um bigode farto e tinham a cara angulosa, fazendo um esgar ríspido, pois nunca os vi sorrir. Usavam um barrete na cabeça e uma farda de cotim com botões reluzentes, com um número de metal fixado nas golas (os seus superiores tratavam-nos apenas pelo número). Tinham umas correias de cabedal atravessadas no tronco, seguras ao cinturão e às patilhas do dólmen. Usavam botas fortes e ferradas, a que se juntavam umas polainas sempre impecavelmente engraxadas.
Às vezes via-os passar defronte da minha casa de fuzil ao ombro. Seguiam sempre aos pares, cada qual do seu lado da estrada, com o tronco muito direito e as mãos atrás das costas. Era um perigo encontrá-los no caminho.
Agora os guardas já não nos metem respeito. A maior parte são rapazolas imberbes, com rosto de meninos tirados da saia da mãe, de cara muito simpática e sorridente. Não há quem os respeite, porque deixaram perder o ar severo que antes caracterizava os guardas-republicanos. Largaram a farda de cotim e vestem uniforme de fazenda azul, com camisa clara. Usam sapatos, bota-de-elástico (à maneira dos magalas) ou até botins de montar. Cada um parece andar segundo lhe parece, chegando a estar juntos à meia dúzia, cada qual com seu fardamento. Andam de carro ligeiro e até já os vi montados em bicicletas vestindo um calção amaricado.
A sociedade degrada-se e a GNR, instituição quase centenária, antes tão respeitada, deixa-se ir nessa perdição. E ainda se queixam de que os bandidos lhes perderam o respeito!
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

Natural do Concelho do Sabugal, Ventura Reis, aceitou o nosso desafio de escrever no Capeia Arraiana sobre alguns temas, onde predominará a saudade dos tempos idos da sua infância e juventude, vivida na sua terra natal, até que a necessidade o empurrou para outras paragens.
plb