O evolucionismo é um dos «dogmas» da mentalidade moderna relativista, e de que este ano muito se fala, porque nasceu há exactamente 150 anos com o lançamento do livro «A Origem das Espécies» do biólogo e naturalista Inglês Charles Darwin e que tem abalado o mundo científico e religioso no último século e meio.

João ValenteSegundo a famosa teoria de Darwin, todas as espécies de seres vivos hoje existentes, inclusive o ser humano, evoluíram a partir de um ancestral comum por meio de mutações graduais (variações espontâneas) e da selecção natural (sobrevivência dos mais aptos). Assim, ao longo de um imenso período de tempo organismos vivos simples deram origem a outros mais complexos meramente através de leis naturais intrínsecas, sem intervenção externa sobrenatural.
Rapidamente esta teoria alcançou notoriedade e crescente aceitação. Um dos principais responsáveis por isso foi T. H. Huxley, o indivíduo que cunhou o termo «agnóstico», que utilizou para descrever sua própria posição. Curiosamente, muitos líderes religiosos foram simpáticos à nova teoria. Entre eles, podem ser mencionados Frederick Temple, futuro arcebispo de Cantuária, Lyman Abbott, influente clérigo americano, e Henry Drummond, biólogo e pastor escocês. Para eles, a evolução era um sinal da providência de Deus e de seu contínuo trabalho em sua criação.
Na verdade, se repararmos bem, a teoria de Darwin afirma que o ser mais apto é aquele que sobrevive, e que os que sobrevivem são os que possuem variações favoráveis, ou seja, os mais aptos. Trocando em miúdos, o ser mais apto é aquele que sobrevive, porque aquele que sobrevive é o mais apto! Portanto, como disse certa vez Karl Popper, o famoso filósofo da ciência, a selecção natural é uma tautologia.
Neste sentido, a crença no evolucionismo pode ser apontada como uma das causas do relativismo triunfante em nossos dias, a ponto de Richard Lewontin, um eminente geneticista da Universidade de Harvard e ardoroso defensor do evolucionismo ter chegado a defender que o darwinismo é uma ideologia, um conjunto de ideias às quais a realidade deve se adaptar:
«Nós ficamos do lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas de suas construções, apesar de seu fracasso para cumprir muitas de suas extravagantes promessas em relação à saúde e à vida, apesar da tolerância da comunidade científica em prol de teorias certamente não comprovadas, porque nós temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Não é que os métodos e instituições da ciência de algum modo compelem-nos a aceitar uma explicação material dos fenómenos do mundo, mas, ao contrário, somos forçados por nossa prévia adesão à concepção materialista do universo a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materialistas, não importa quão contraditórias, quão enganosas e quão mitificadas para os não iniciados. Além disso, para nós o materialismo é absoluto, não podemos permitir que o Pé Divino entre por nossa porta.» (Phillip E. Johnson, «Objections sustained», InterVarsity Press, Illinois, 1998, p. 71).
A consequência última disto é que nenhum valor seria absoluto. Nem verdade, nem moral, nem beleza, nem religião, nem dogmas, nada teria estabilidade, pois que tudo estaria sob a lei da evolução, esta sim, tomada como sendo absoluta.
Portanto, o evolucionismo actual, levado à última consequência e sem reservas, é mais do que uma teoria biológica: é um princípio absoluto – um dogma religioso – de uma metafísica relativista. E eis aí uma contradição sintomática e reveladora: o relativismo fundamenta-se num princípio absoluto, que é o da relatividade da selecção natural!
Outros, porém, como o pregador calvinista inglês Charles H. Spurgeon, manifestaram a sua oposição à teoria evolucionista desde o início. Na comunidade científica, com o passar dos anos a teoria evolucionista tornou-se a doutrina universalmente aceite, a posição consagrada pela academia e hoje já extrapolou o campo puramente biológico e é aplicado a tudo: nada mais é considerado estável, pois que se crê que tudo evolui.
O pior é que este conceito de evolução, ao que li algures, nada tem a ver com o de Darwin, pois este não fazia qualquer referência à selecção natural e só foi definido, tal como o conhecemos hoje, no Congresso de Chicago de 1959 sobre o centenário da obra de Darwin, como «um processo unidireccional e irreversível que, no transcurso do tempo, gera novidade, diversidade e níveis de organização mais elevados». (Apud Ossandòn Valdès, Juan Carlos, En torno al concepto de evolución, artigo na revista «Philosophica», de Santiago do Chile, Suplemento doutrinário da revista Jesus Christus, número 50, de Buenos Aires p. 7).
E o mais curioso é que toda a sua teoria parece uma transferência para a biologia do argumento básico de Adam Smith a favor de uma economia racional segundo o qual o equilíbrio e a ordem da natureza não surgem de um controle externo mais elevado (divino) ou da existência de leis operando directamente sobre o todo, mas sim a partir da luta entre indivíduos pelos seus próprios benefícios (em termos darwinistas, pela transmissão de seus genes a gerações futuras através do êxito diferencial na reprodução). (Jay Gould, O Polegar do Panda. p. 56). Resumindo; uma aplicação analógica à biologia de uma teoria social!
Aliás o conceito de evolucionismo, nem foi Darwin que o inventou. Na Antiguidade, a filosofia de Anaximandro e Heráclito – tipicamente gnóstica – já negava a existência de sujeito nas mudanças, afirmando que a única realidade era o mudar, o «vir a ser».
Todas as seitas gnósticas de todos os tempos acreditavam que a divindade era um perpétuo fluir, e que, por isso, toda realidade era mutável. Para os gnósticos o Deus que se apresentou a Moisés – o Deus que se dizia imutável – era o demiurgo criador do mundo material e do mal. Esse Demiurgo mau seria o defensor de falsos valores imutáveis.
(Continua na próxima semana.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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