«Viagens na minha infância» poderia titular-se ainda «Nostalgia da Pequena Pátria». Assim interpretamos o significado das «lembranças romanescas» ordenadas no recente livro de Joaquim Tenreira Martins, natural da freguesia de Vale de Espinho, no concelho do Sabugal, junto ao ainda criança Rio Côa, mas residente na Bélgica há mais de 30 anos e onde constituiu família.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalTivemos o grato prazer de um primeiro encontro, há pouco tempo atrás, na freguesia de Fóios (Sabugal) onde o Centro Cultural levou a efeito um Encontro de Escritores das Terras do Côa. Na memória ficou-nos então o excelente estudo que ele apresentou acerca dos episódios das invasões francesas nas terras de Riba Côa, episódios esses que não foram menores, uma vez que, do ponto de vista militar, Almeida era o alvo e também Almeida se situa em Riba Côa.
A infância que define a temporalidade deste livro é decerto a que medeia entre 1950/1960, uma vez que o autor, nascido em 1945, desse ano e pouco mais seria difícil possuir uma clara memória, par além da circunstância familiar, em que avulta a personalidade de seu pai, que teve a profissão de alfaiate (mas que também praticava a venda nas feiras e mercados da raia cudana) e em cuja oficina se reuniam várias pessoas da aldeia, que transformavam a alfaiataria em «tertúlia do saber». Para a criança, que então era Joaquim, terão surgido os primeiros clarões acerca de uma realidade maior do que a da sua aldeia, mas não muito para além dela, definindo-se um território minúsculo, em que assumem significação social e geográfica, as aldeias circunvizinhas (Quadrazais, Soito, os «pueblos» para lá da Serra das Mesas, já Castela, a «ancha Castilla». E a Serra da Malcata, o acidente orográfico, mas ainda o espaço de trânsito (das aventuras dos contrabandistas) e de artesanato indústrial, qual a do fabrico de carvão de torga, desde o Alambar até aos redutos da Quinta do Major, ou Quinta dos Pinharandas. Estamos perante uma autobiografia, de modelo memorialístico, em que o escritor não se contempla a si mesmo, nem se torna centro de acção, mas se restringe a espectador convivencial, pois nas pequenas comunidades, todos e cada um acabam por ser comparsa dos acontecimentos, dos gostos e desgostos, e dos tempos e dos sítios.
Viagens da minha infânciaO autor ordena as lembranças em quatro partes. Na primeira, as memórias da infância de quanto ouvia de seu pai; na segunda, intitulada «Os Mitos e os Medos», espaço para fixar os sítios míticos, por vezes fantasmagóricos, as histórias de bruxas, as aventuras de povos móveis como os ciganos, os invernos e as histórias populares acerca dos lobos que desciam da serra; na terceira parte, uma evocação de árvores e de homens: o álamo, e, como árvores em pé, o mítico dr. Armando do Soito (acerca de quem se narravam as mais inverosíveis aventuras cirúrgicas, sem um mínimo de condições) ou do sr. Valente, que levava o seu circo às distantes terras da Raia.
As Memórias terminam com um registo dos usos e costumes e interesses de uma criança – as festividades, as capeias raianas, o pião de amieiro e, também sinal de crescimento, a descoberta do mundo além, a começar por Castela.
Autobiografia parcial quanto ao tempo, ela constitui um registo saboroso da vida quotidiana numa remota aldeia de Riba Côa, cujos usos e costumes permaneceram inalterados e impermeáveis às novidades de fora, incluindo a tradição linguística, pois, embora no quadro ribacudano existissem uma «fala» comum, esta não impedia as «falas» particulares. E, como o autor regista as memórias em conformidade com a fala, encerra o livro com um glossário. De certeza que, hoje em dia, mesmo em Vale de Espinho, as novas gerações necessitam deste glossário para entendimento do que lêem. Tudo muito belo, notamos, porém, a falta de uma ou duas páginas relativas à memória de Carlos Marques, o geógrafo do Côa, que passava as férias na sua aldeia natal e do Zé Margarido, caçador sem descanso.
Esperamos, agora, por um segundo volume, o das viagens à adolescência.
«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

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