35 anos depois, ainda é 25 de Abril…

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Madrugada ainda, sou acordado pelos meus colegas da Residência Universitária onde vivia, dando-me a notícia que havia um golpe de estado… Não vale a pena hoje falar do que foi esse dia, pois muito do que sonhara, ali estava concretizado e, sabia, nada seria como dantes.
Hoje interessa sobretudo perceber se valeu a pena, não tendo dúvidas que, da minha parte, a resposta é sim, sem hesitação.
E só quem não viveu os tempos da «outra senhora», ou quem tem memória fraca, pode ter outra resposta.
E isso é ainda mais claro no nosso Concelho.
Ou já esquecemos que em pouco mais de dez anos (década de sessenta do século passado), o Concelho perdeu perto de 60% da sua população que emigrou para França e Alemanha sobretudo?
Ou já esquecemos as nossas aldeias sem luz, sem água e sem esgotos?
Ou já esquecemos que os nossos idosos não tinham reforma, nem assistência médica, nem quaisquer descontos nos medicamentos?
Ou já esquecemos que não havia instituições de apoio à 3.ª Idade?
Ou já esquecemos o número reduzido de jovens que iam estudar e se ficavam, quando ficavam, pela 4.ª Classe?
Ou já esquecemos os tempos em que nas nossas casas (e falo por mim, que até era um privilegiado…), não havia frigorífico, não havia televisão, não havia máquinas de lavar roupa ou louça, não havia microondas, não havia…?
Ou já esquecemos que as famílias não tinham um carro, quanto mais dois ou três?
Ou esquecemos os jovens que voltaram mortos ou feridos ou marcados por uma guerra?
Tanta coisa que mudou…
E hoje podemos ter uma visão crítica do que se passa, porque, felizmente, conquistámos muito…
Continua a haver desigualdades? Sim, continua.
Continua a haver ricos e pobres? Sim, continua.
A sociedade actual é a ideal? Não.
O Portugal de 2009 é o Portugal com que muitos sonharam em 1974? Não.
Mas quanto caminho andado…
E se hoje continuamos a lutar por uma sociedade melhor isso o devemos à geração de 74 e à sua capacidade de revolta e de luta.
Se alguma coisa devemos às mulheres e aos homens de 74 é esta insatisfação, mas é também esta democracia e esta liberdade que nos permitem lutar por um mundo melhor.
Negar isto, é negar o 25 de Abril.
Afirmar que Portugal hoje está pior que em 1974 é negar o 25 de Abril.
Mas é igualmente negar o 25 de Abril, não acreditar nas instituições democráticas resultantes desse dia.
Mas é igualmente negar o 25 de Abril não participar nas decisões colectivas, seja através dos actos eleitorais, elegendo e sendo eleito, seja pela participação cívica em formas de democracia participativa.
E porque acredito que construir Portugal é um dever e um direito de todos, termino como terminava o Programa do MFA: «0 Movimento das Forças Armadas, convicto de que os princípios e os objectivos aqui proclamados traduzem um compromisso assumido perante o País e são imperativos para servir os superiores interesses da Nação, dirige a todos os Portugueses um veemente apelo à participação sincera, esclarecida e decidida na vida pública nacional e exorta-os a garantirem, pelo seu trabalho e convivência pacifica, qualquer que seja a posição social que ocupem, as condições necessárias à definição, em curto prazo, de uma política que conduza à solução dos graves problemas nacionais e à harmonia, progresso e justiça social indispensáveis ao saneamento da nossa vida pública e à obtenção do lugar a que Portugal tem direito entre as Nações.»
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

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