Os que viveram na juventude ou na velhice, no Estado Novo e tiveram a dita de participar, colaborar de alguma forma ou simplesmente assistir à Revolução dos Cravos, nunca mais esquecerão a euforia das primeiras horas e dias de todo um povo que «saiu à rua». Era a morte do Estado Novo e o nascimento do Estado Democrático.

José MorgadoFelizmente, passados 35 anos, o ritual da sua celebração ainda não desapareceu, nem acabará enquanto existirem milhões de portugueses que viveram tão intensamente essa «ruptura histórica» e se soubermos transmitir às gerações seguintes, natas e nascituras, porque razão nasceram num país livre.
No entanto, o Estado Novo desmoronou-se depressa, mas ainda não se dissolveu completamente, após o período revolucionário.
Com humildade os capitães de Abril cederam de bandeja aos políticos o poder absoluto então conquistado permitindo a formação de partidos políticos e eleições livres.
Foi caso único, na história dos golpes militares.
Muitos pensaram que não actuaram por iniciativa própria e que por detrás deles, outras forças jogavam na sombra, nomeadamente PCP que se infiltrara na Academia Militar. Penso que tudo não passa de suposições.
A imprensa internacional, militares e intelectuais de todo o mundo, deslocaram-se a Portugal para tentar perceber o que se estava a passar.
As afirmações de Vasco Lourenço são elucidativas: «Era cómico convencê-los de que só queríamos criar condições democráticas. Tivemos uma influência muito forte no mundo da época, chegamos a ser uma espécie de coqueluche da Europa. Mostramos que as Forças Armadas podiam estar a favor da liberdade. Os militares peruanos derrubaram a ditadura mas não entregaram o Poder aos civis, nós entregámos. Em Espanha, por exemplo, a transição para a democracia não se teria dado de maneira pacífica se não tivesse havido o exemplo português.»
Segundo Otelo Saraiva de Carvalho, toda a América Latina sofreu a sua influência. Nos países do Leste talvez não tivesse havido perestroika sem o 25 de Abril.
Parece é que em Portugal, a médio/longo prazo ficou tudo na mesma.
O escritor José Saramago, Prémio Nobel da Literatura disse nos finais dos anos 90: «Se não tivesse havido o 25 de Abril em 1974, hoje estaríamos exactamente como estamos. A questão a saber, é se nos mereceremos ter vivido aquela data. Tal como os que deflagraram o Maio de 1968, em Paris, merecerão, sendo o que são actualmente, tê-lo vivido?»
Acrescento eu, outra, a esta interrogação e que é uma frase batida: «Terão sido pérolas a porcos?»
Que a tradição do Sabugal em comemorar anualmente, com dignidade, o 25 de Abril, continue sempre, para que não se perca a memória.
«Terras entre Côa e Raia», opinião de José Morgado

morgadio46@gmail.com

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