Mostra-me a tua lixeira, e dir-te-ei quem és.

António MouraUm dia vi uma pedra, uma linda pedra antiga, bem trabalhada. Representava parte de uma cruz, com uma base larga na zona inferior prolongando-se na vertical até à secção horizontal (travessa) que compunha a dita cruz. Estava incompleta mas mesmo assim bela, como qualquer estátua antiga a que falta um braço, uma mão ou a ponta do nariz (sphinx). Quando a vi, não acreditei logo no que via, de tal forma era estranho o local do achado. Mas por muito estranho, ele é já uma celebridade desde há mais de 30 anos, trata-se pois da já famosíssima lixeira a céu aberto que desde há três décadas, em Quadrazais, obtém a complacência de Presidentes de Junta, Câmaras Municipais e demais autoridades competentes que na GNR dispõem agora de um chamado «núcleo do ambiente».
PedrasA pedra, reconhecia de imediato já que se tratava de uma cruz que ornamentava o fontanário público da aldeia e que por acidente ou vandalismo lhe fora subtraída a parte superior, tal como podem ver na imagem da esquerda. A imagem da direita, essa, representa um pálido substituto daquilo que facilmente imaginamos ter sido o original. A espessura é de cerca de metade com apenas 4 faces simples em vez das oito faces do original (ou 4 faces chanfradas), e sem a base inferior que assentando numa outra formava um belo e imponente motivo.
Este episódio ocorreu há 20 anos atrás. Nos últimos 15 anos ornamentou um jardim em Coimbra. Hoje, ela está de novo disponível para servir de modelo a algum digno escultor que se proponha realizar o trabalho (cópia de substituição), no estrito respeito pelo original, tanto na traça como no tipo de granito.
Já encontrei coisas interessantes nesta lixeira, entre as quais objectos em ferro fundido tais como balanças e utensílios de uso agrícola. Felizmente isso não acontece com tanta frequência ultimamente. Sinais dos tempos, as pessoas vão mudando. Mais vale tarde do que nunca.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

mouramel@sapo.pt

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