A Páscoa é sempre no domingo seguinte à primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera (21 de Março). Esta data baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual se trata de uma festa móvel no calendário romano.

Ressurreição de CristoA Páscoa é pois uma tradição herdada dos hebraicos, mas que para os cristãos tem um significado manifestamente diferente. Na cultura cristã Páscoa significa a ressurreição de Cristo e a redenção do Homem.
O drama da Paixão sempre foi o que mais comoveu os povos cristãos. E isso verificou-se muito no tempo antigo, e muito em particular nas aldeias raianas do concelho do Sabugal, onde o sentimento religioso era muito vivo. Toda a Quaresma era tempo de contenção, seguindo-se, em absoluto respeito, as regras do Jejum e da Abstinência nos dias assinalados. Calavam-se os sinos, que eram substituídos pelas matracas. Interditavam-se os bailes e outras formas de divertimento, vestiam-se roupas escuras em sinal de dor, à noite e ao ar livre rezavam-se os martírios. E tudo era mais sentido na Semana Santa, ou «Semana Menor», que era a última da Quaresma, onde o rigor do calendário litúrgico e das regras de recolhimento eram acatadas com absoluto respeito.
Mas tudo mudava no sábado de aleluia, quando à meia-noite os sinos repicavam sinalizando a alegria pela ressurreição do Salvador. No domingo de Páscoa as pessoas vestiam roupas garridas, iam á missa, onde os cantos alegres voltavam a fazer parte da liturgia, e comiam à tripa forra carne esfoladia, filhós, rabanadas e muitos outros doces.
À Páscoa o povo também chamava a Festa das Flores, por ocorrer já no tempo primaveril, quando os campos começam a ficar garridos. Em algumas aldeias as ruas eram atapetadas de pétalas e das janelas caía uma constante chuva de flores sobre os andores que seguiam na procissão.
Era no dia de Páscoa que os padrinhos ofereciam o folar aos afilhados, consistindo em amêndoas ou bolos, quando não em uma ou duas notas de conto. Também os párocos tinham o uso de «tirarem o folar», percorrendo as ruas da aldeia acompanhados por larga comitiva e entrando nas casas para as abençoar e colher as dádivas das famílias.
Um dos grandes divertimentos da Páscoa era o chamado «enganchar», costume que já se perdeu e que consistia numa aposta, ou ajuste, entre duas pessoas, normalmente entre crianças, feita pela ligação dos dedos mindinhos. Aquele que no dia de Páscoa primeiro mandar rezar o outro recebe um folar (geralmente um ovo cozido). Nalgumas terras chamavam «aconchavar» a esta peculiar tradição, usando a fórmula verbal do aconchavo: «Aconchavar, aconchavar / até ao dia do folar / em que te mandarei rezar».
A Páscoa era também a altura em que as raparigas de antanho gostavam de se juntar para o jogo do cântaro, que às vezes também envolvia os rapazes. Seguiam pelas ruas cantando e atirando um cântaro de barro de uns para os outros.
A globalização destruiu a tradição nas aldeias, mas o espírito e a alegria ainda estão bem vivos nos tempos que correm. A Páscoa é uma das alturas do ano em que as aldeias se enchem de gente, ao acolherem os naturais que andam em diáspora que ali revêem as famílias e revivem as tradições.
Paulo Leitão Batista