Na ponte entre a margem da mente e a da sua ausência, ilumina-se esse sentimento de perda a que chamamos solidão.

António MouraPara o animal mental dar a outra face significa colocar-se a jeito para ser agredido, mas para outros esta é uma poderosa mensagem que nos diz que devemos viver entre os opostos, quando algo é negativo devemos dar a face positiva, em presença de um pólo devemos dar o outro, para que a energia possa fluir livremente sem congestionamentos.
A solidão não é uma revolta para fora, é para dentro, é um mecanismo de encontro a si mesmo, indutor de um conhecimento não mental, não decifrável pelo raciocínio, e por isso também apenas gerado na sua ausência. É pessoal e intransmissível. Não pode ser oferecido, apenas indicado.
O conhecimento de natureza mental é exterior e comum a todos, e como tal pode ser partilhado. Esse mecanismo actua como uma feromona circulando por todo o enxame humano, induzindo comportamentos direccionados para o exterior, para a predação, usando pensamentos como ferramentas de progressão. A sua ausência, inverte a direcção do movimento de fora para dentro, para o centro no qual não há perguntas nem respostas, não há bem nem mal, apenas um centro numa união de opostos.
Os Himalaias crescem em resultado da igual oposição de duas placas tectónicas, sem que uma domine a outra, o caminho do homem é igualmente o do equilíbrio de conflitos sem repressão nos seus opostos, animal e espiritual, bem e mal, positivo e negativo. Quando um lado quer dominar, temos apenas de «dar a outra face».
Os verdadeiros perigos no homem surgem quando uma das suas partes tentando negar a outra, produz a fricção e o consequente tremor de terra. Se houver aceitação de ambas partes o homem pode cometer erros (de aprendizagem), mas nunca terão a violência, que resultando do atrito da negação, conduzem ao brusco deslizamento no animal selvagem que também somos. Esse é o homem de duas faces assimétricas em que uma domina uma outra perpetuamente revoltada.
Sem as dores resultantes de duas partes em equilibrado conflito, o homem continuará na ilusão de um caminho que o não deixará passar pelo buraco da agulha, não por causa da posse de bens materiais! Mas sim pela posse de conceitos mentais e valores morais.
O que é amor e ódio, guerra e paz? Na perspectiva da mente são coisas diferentes porque a sua natureza vive no movimento. A divisão cria o movimento que a alimenta, quando a mente pára o movimento cessa e a divisão também para dar lugar ao Centro. Mas para o amor não correspondido que se transforma em ódio ou a guerra santa em paz podre, a mente na sua incessante busca introduz o factor tempo através do qual cada elemento ocupa um espaço diferente, tornando assim inteligível (para ela) o mundo que a rodeia. A mente é extraordinária no seu fervilhar incessante, proporcionando ao homem um considerável bem-estar físico comparativamente aos animais, mas ela é também o maior dos obstáculos quando nos agarramos às pontes que constrói. As pontes são para ser atravessadas.
Que fazem os pais, cujo amor os induz a proteger os filhos, seu património genético? Nada que os animais não façam ao protegerem as suas crias, e isso é bom e deve ser aceite, mas nada tem de espiritual, é apenas um maravilhoso mecanismo instintivo e egocêntrico do nosso lado animal. Amar, é dar sem a expectativa de quem por ter demasiado nada espera em troca, nem mesmo o prazer de se sentir bem em resultado de ter dado. Praticar boas acções num espírito mercantilista, de troca, de toma lá dá cá, é o que fazem os detentores de grandes fortunas (igreja incluída) quando se tornam beneméritos. Primeiro exercem o poder acumulando neles muito daquilo que era dos outros, depois porque sentiram vazio nos objectivos ou problemas de consciência, tentam então comprar o alimento da boa consciência, usando o mesmo método do caçador, do animal mental. Mas esse é um velho cliché, que tem de ser abandonado para quem quiser transpor a ponte. A busca invertida e as velhas ferramentas abandonadas.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

mouramel@sapo.pt

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