Uma das mais inquietantes observações que podemos fazer a propósito da compulsiva adoração da Igreja Católica relativamente ao «deus matéria», é essa incompreensível contradição no discurso, entre a glorificação dos valores espirituais e a adoração visceral aos aspectos materiais.

António MouraO discurso clerical, claramente perturbado e ultrapassado no tempo, defronta-se hoje com um óbvio impasse na escolha das ferramentas de controlo do rebanho. Para ele, o objectivo primeiro continua a ser o da perpetuação desse seu poder chamado «espiritual», para isso tem de mostrar a sua competente autoridade «material», os seus santos e os seus mecanismos (científicos?) de aferição de santidade. É preciso convencer, mostrar que sabe, esquecendo que foi desde há muito subjugada pelo deus matéria, já no tempo em que queimou seres humanos em fogueiras e destrui para sempre culturas ancestrais. Quando um discurso espiritual é ultrapassado pelo tempo, é porque de espiritual nada tem. A essência espiritual é intemporal porque não bebe na matéria.
A verdadeira espiritualidade não tem de se adaptar ao tempo, porque ela tem uma dimensão supra-temporal e é fruto de um conhecimento gnóstico. Cristo não se adaptou ao tempo, foi o tempo que se adaptou a ele. Tendo tão só sido um veículo portador de mensagem, um veículo auto-consciente capaz de se tornar vazio. O problema da igreja está no facto de estar cheia de coisas, de conceitos e valores morais, de imensos valores materiais. Mas a igreja é uma instituição gerira por milhares de mente desejosas, como podem elas estar vazias.
Para os judeus a vida começa com o nascimento. Para a igreja católica ela começa algures durante o acto sexual, com os amantes ainda suados do prazer carnal. Independentemente das condições de vida que essa potencial criança possa vir a ter nesta terra. O mais importante é a matéria, a carne, a perpetuação da espécie. Com o espírito subjugado pela carne, a igreja tem de dar a outra face se quiser voltar a ser uma religião viva. O seu conflito é o mesmo de todos os homens, mas cabe também a ela dar a outra face se quiser voltar a viver.
Constantino foi o primeiro e o maior destruidor do Cristianismo Primitivo (puro), numa altura em que muitas seitas cristãs bebiam ainda das águas cristalinas, foi ele quem após a sua própria e conveniente conversão, escolheu e moldou a igreja que chegou até nós. Peneirando evangelhos, numa clara trajectória de consolidação do poder. Constantino deu o toque, o modus operandi religiosamente seguido pela igreja até hoje.
Mas vejamos bem, se as pessoas fossem verdadeiramente religiosas, verdadeiramente centradas na sua espiritualidade, o que iriam elas fazer a uma igreja? Deus não está em todo o lado? Será que vão por hábito, por temor, para ver quem vai, para medir os índices de religiosidade dos outros ou pelo sim pelo não, numa postura de precaução e prevenção claramente comercial e tão contrária à espiritualidade proclamada? Um espaço físico entre paredes e tecto a que chamamos igreja não dá por si só nada ao homem, pelo simples facto de deslocarmos até lá os nossos corpos materiais. A espiritualidade é um sentimento de encontro consigo mesmo, de encontro com coisas que não têm a ver com o exterior. A própria acção evangelizadora se torna assim suspeita, como podem dar aqueles que não receberam, será que todos os que apregoam a palavra são seus íntimos, ou colocam-na apenas na boca para a domesticar, numa vã tentativa de auto-convencimento. A palavra vem de dentro para fora, não pode ser adquirida no exterior.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

mouramel@sapo.pt

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