A propósito da revista «Sabucale» e do artigo sobre «Armários de pedra na arquitectura tradicional do Alto Côa. Testemunhos de culto Judaico?» venho tecer algumas considerações.

Kim TutatuxNão sou historiador, pelo que não estou sujeito ao cinzentismo do rigor cientifico que o autor coloca no seu texto, permitindo-me a liberdade de admitir alguns aspectos sem esse peso que o autor aplicou no artigo.
Por essa razão, sou levado pelo conhecimento adquirido, pelo que ouvi os mais velhos dizer e opinar sobre o assunto e pelo raciocínio.
Quando em pequeno, tive oportunidade de assistir à que deve ter sido a ultima construção em pedra feita em Pouca Farinha, realizada pelo meu tio Joaquim, que não era arquitecto nem tinha estudos avançados, mas que era homem sabedor. Construiu essa casa, utilizando apenas o saber que recebeu dos nossos antepassados, recorrendo ao seu engenho, arte e ajuda de muitos amigos, que com muito esforço talharam e colocaram no seu devido sitio as lajes de granito.
Tive oportunidade de ver aplicadas na prática as técnicas de outrora, e lembro-me que o esforço era tremendo, sendo que algumas das pedras eram erguidas com recurso a ferramentas rudimentares, como rampas e alavancas construídas de madeira.
Colocar a pedra sobre a porta foi trabalho para alguns homens e levou mais de 2 dias, isto sem contar com a preparação e transporte para o local feito em carro de bois.
Casa do CasteloAo ler o referido artigo e tendo em conta o que me foi dado observar, várias foram as questões que se me levantaram.
Falo no caso da «Casa do Castelo» que é o que melhor conheço, deixando os outros um pouco à parte, sendo que o que vou dizer, são questões que também se podem colocar aos outros exemplos falados no referido artigo.
Sabendo o esforço necessário para construir uma casa de pedra, com recurso a técnicas ancestrais, por o ter presenciado, parece-me que seria demasiado tanto esforço e trabalho para construir um «Armário».
No caso da «Casa do Castelo», falamos de uma peça arquitectónica que pesa algumas toneladas composta por 9 pedras de granito, cuidadosamente talhadas, com cerca de 1,81 metro de altura por perto de 1,25 metro de largura.
Sabendo, porque presenciei, o trabalho que dá talhar no granito tais peças e o esforço que implica a sua colocação, a questão que se me coloca é a seguinte:
Será que quem construiu essas peças, as realizou com o intuito de lá colocar as «gamelas» onde se comia, e mais alguma pequena panela ou outro utensílio domestico que na época da construção eram escassos?
Lembro-me ainda bem. quando menino, em casa dos meus avós, familiares e amigos poucos eram os utensílios e mobiliário.
Na maioria existia, uma cântareira de madeira onde um ou dois cântaros continham a agua para beber com uma malga na boca para impedir a entrada de poeiras, uma ou duas panelas de ferro para cozinhar os caldos, um caldeiro para a vianda do porco, uma ou duas gamelas de onde todos comiam sentados em bancos baixos de 3 pés e algumas cucharras (colheres) e garfos de ferro.
Na época os lavatórios eram peças de mobiliário pouco comuns, e algumas casas tinham uma cadeira que se destinava a visitas importantes como o Sr. Padre ou o Sr. Doutor.
As mesas eram novidade na época e um luxo que apenas alguns tinham.
As camas eram enxergas de camisas de milho e quartos era coisa que não era comum, que a existirem não eram mais que o espaço de uma cama, até porque nas casas mais modestas chegavam a viver mais de meia dúzia de pessoas, sem cama sendo muitas vezes a «cama» um pouco de feno ajeitado, junto dos animais na loja.
Eram assim as casas modestas do povo de que eu me lembro.
O que me leva a crer que na época da construção da «Casa do Castelo» e das outras referidas, mesmo que porventura mais abastadas, seriam idênticas às mais modestas casas que conheci.
Assim, questiono-me porque razão quem construiu estas casas despendeu tanto tempo e recursos para construir um «armário» onde não cabia um cântaro?
Para construir o classificado como «armário» da Casa do Castelo utilizando as mesmas técnicas que o meu Tio utilizou, seria necessário o trabalho de muitos homens durante mais de um mês, desde a recolha da pedra até à sua colocação.
Então, será que o dono da casa iria optar por essa solução apenas para construir um «armário»?
Se fosse essa a finalidade não teria optado pela utilização da madeira, como acontecia na cântareira da minha Avó?
Então qual seria a utilidade de despender tantos recursos e matéria numa peça arquitectónica?
(Continua no próximo domingo, 29 de Março.)
«O Bardo», opinião de Kim Tomé

kimtome@gmail.com

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