«O batimento de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um tornado no Texas?»

António MouraEsta é a célebre metáfora (Efeito Borboleta) tornada emblemática pela Teoria do Caos, fenómeno de sensibilidade às condições iniciais, com o seu conceito de «determinismo relativo». De facto, a pergunta que a metáfora coloca não é cientificamente aceitável, devido ao efeito de dissipação da pequena quantidade de energia emitida. Por vezes a Ordem que emerge do Caos, é exactamente oposta ao chamado Efeito Borboleta. E talvez possamos considerar também, que se o seu efeito pode criar um tornado, também o pode anular.
Na verdade, o que podemos retirar da observação da complexidade, é o de ela conduzir à simplicidade, assim como o caótico à estabilidade ou a guerra à paz.
Para o observador que sabe distanciar-se do palco, da sua acção, movimentos e tempo, não é muito difícil cheirar a transformação das coisas nas suas transições pendulares. Mas para aquele que em permanência está na acção, mergulhado nos conceitos, valores e condicionalismos resultantes desses apegos, o olhar visionário não é possível, embora seja ciclicamente indispensável no virar de página dos grandes problemas.
Muitas coisas têm de ser alteradas nesta presente sociedade tribal. Não nos iludamos, os mecanismos de obtenção e consolidação do poder que regulam o mundo, continuam a ser os mesmos dos tempos da barbárie. A espada é hoje a pena, a palavra ditatorial e sem apelo armada por doce lei orgânica, ou norma comunitária, para melhor engolirmos. Os lobbies vistos com normalidade democrática, cercam leis que se perpetuam ao serviço do mais forte, porque o homem continua a ser o mesmo, apenas mudou a forma, não o conteúdo.
O poder do povo, chegou à encruzilhada da legitimidade que advém do voto, sem ter forçosamente razão. A razão tem que ver com qualidade e não com quantidade. O princípio da democracia baseia-se num pressuposto primário que atribui o poder ao mais forte (a união faz a força), o seu funcionamento gerou-se na noite dos tempos, ele cria blocos de oposição assimétrica, tal como no mundo natural, presas e predadores.
Onde está o homem?
Descobriu-se ao acaso, num filme passado a grande velocidade numa sala de montagem, que os búfalos africanos vão a votos quando decidem mudar de pastagens. Deitados enquanto ruminam, a votação realiza-se lentamente, e consiste em levantarem-se individualmente, apontando o focinho numa determinada direcção e deitar-se de novo. Um após outro de forma contínua, até finalmente toda a manada se erguer e seguir o rumo médio de todas as direcções apontadas. Uma notável proeza de consenso democrático.
Onde está o animal?
Por vezes, frequências inaudíveis à maioria das mentes, podem transformar alguns raros pelo seu toque. Outros apenas ouvem, dogmatizam e enquadram nas suas próprias culturas, transformando, mesmo que parcialmente (por ignorância ou excesso de conhecimento), veiculam ainda assim ensinamentos que transcendem as suas próprias limitações, crenças, moral e demais ferramentas de apoio à normalidade vivida.
Mensagens sem tempo nem lugar concreto, surgem naquilo que não oferece resistência nem contem, porque só o vazio pode realmente conter.
Retiremos das mensagens aquilo que de acessório o animal coloca, e veremos a mesma origem e universalidade, o mesmo tronco comum. Apenas a nossa mente caótica impede esse olhar visionário. Essa torre de Babel.
Na babilónia, Babil significava «Porta de Deus», no hebraico antigo significa «Confusão». Confusão às Portas de Deus, nada de mais natural.
A mensagem de uma borboleta vale mais pela transformação que se opera no seu interior, do que pela mudança que provoca no exterior. Ela vive rastejando até à morte que lhe dá vida, para uma simbiose com as flores.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

mouramel@sapo.pt