É de grande importância o impacto que a imagem pode gerar a jusante ao utilizar o visitante como embaixador.

António MouraAs imagens quaisquer que elas sejam, urbanas, rurais, de paisagens mais ou menos humanizadas, constituem uma poderosa influência do nosso comportamento. Num novo espaço em aproximação a primeira mensagem é sempre visual, é a mais importante, é aquela em que mais acreditamos porque é gerada na distância onde o não compromisso é possível, e por isso lhe atribuímos mais verdade ou pureza. À medida que nos aproximamos da imagem, ela desaparece, para dar lugar ao objecto real com o qual temos de estabelecer compromissos. O objecto real, por contaminação passa assim a fazer parte da nossa realidade ou da percepção que temos dela, e que projectamos também nos outros. Tal como no amor, apaixonamo-nos por imagens pintadas dentro de nós, porque o mecanismo de aproximação física assim o exige.
O que buscam as pessoas nos seus momentos de turismo e lazer, e no contacto com lugares novos, é a percepção de imagens e sabores numa liberdade que a distância de uma acção transitória permite.
No entanto, a imagem que temos de nós próprios e que no quotidiano projectamos à nossa volta, em todas as nossas acções, é a imagem que realmente influencia os outros, porque é a imagem real, não a imagem turística.
Na nossa comunidade, muitas são as aldeias cuja imagem pode ser englobada na categoria de cacofonia paisagística. Numa panóplia de cores, materiais e formas anárquicas, que apenas podem revelar interesse para algum estudioso em ciências humanas.
Nem as igrejas escapam à lapidação do «espírito do avô», onde se misturam granitos polidos de texturas e origens diversas, com o nosso tosco antigo. Onde as suas torres, outrora ornamentadas com ninhos de cegonha e apetrechos (galos) indicadores do sentido do vento, dão agora lugar à manifestação de endinheirados egos, na forma de enormes cruzes luminosas medonhamente descaracterizadoras.
As edificações religiosas nas aldeias do nosso Concelho, capelas e igrejas, deveriam constituir espaços privilegiados de projecção de imagem. Espaços geridos por entidades ou comissões de vocação multidisciplinar coordenadas pelo próprio I.P.P.A.R., e não deixadas entregues a comissões de festas, ou mordomos preocupados antes de mais em mostrar a grandeza de si próprios através de «notáveis obras de restauro e acrescentos sem nexo» ou de festas e romarias. Como se a fé pudesse ser mostrada a alguém.
A morte do avô, é a destruição de tudo aquilo que representa a imagem de um passado cuja proximidade compromete e priva de apreciarmos em liberdade.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

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