O Capeia Arraiana é Opinião Pública provocada pela edição informativa dos pensamentos de quem escolhe este espaço para dar espaço ao seu pensamento. O tema do momento anda à volta da realização de uma Capeia Arraiana nos Açores por ocasião das festas Sanjoaninas onde o religioso anda de mãos dadas, perdão, de cordas dadas com as célebres largadas das vacas. E só há duas hipóteses: os que estão a favor e os que estão contra. Os indecisos não contam para esta discussão. Após a discussão importa ficarmos todos do mesmo lado, ou seja, a agarrar ao forcão.

Capeia Arraiana e SevilhanasUma das regras de ouro do jornalismo que me ensinaram obriga a que se relatem factos. O jornalista não é metereologista. Os opinadores não podem e não devem ser confundidos com opiniáticos. Mas todos podemos e devemos ter opinião. O jornalismo, a comunicação social, o poder da cidadania alicerçado nos blogues e outros meios da internet tem direitos e deveres, ou melhor, deveres e direitos. Garantir e permitir uma discussão pública sobre os temas mais envolventes das sociedades. Até porque o mundo está em mudança, em acelerada mudança, e o lugar na História sempre se conquistou e muito poucas vezes se comprou.
«Branding is everything», ou seja, «a notoriedade da marca é tudo» é a definição mágica do professor All Ries, guru da comunicação. All Ries considera que a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, pode ser usada como ponto de partida para planear estratégias e produzir produtos inovadores, construir marcas vencedoras e alcançar o êxito nos negócios. Quando sentimos vontade de saborear uma boa refeição associamos logo esse apetite a um determinado momento e/ou a determinado restaurante. A psicologia reconhece este fenómeno de persuasão que condiciona e reforça as decisões. Aconselho vivamente aos três candidatos à Câmara Municipal do Sabugal a leitura das «22 Consagradas Leis do Marketing, de All Ries & Jack Trout» até porque vão ser obrigados a «venderem-se» ao eleitorado até Outubro.
Na comunicação de marketing todos trabalham para uma marca. Wilbur Schramm (1907-1987) no seu «Modelo Funcional» defende que é absolutamente necessário construir um código (marca) que possa conquistar o receptor. As marcas reúnem as experiências reais e virtuais, a tradição e a modernidade, a memória e o futuro, a recordação e a realidade. A marca é um atalho, um elemento catalisador e age como forma de expressão social. A marca lidera, acelera e interage.
O Conceito de Branding diz-nos que o processo de desenvolvimento, criação, lançamento, fortalecimento, reciclagem e expansão de marcas passa pela fase da organização empresarial com modelos de negócios (gestão horizontal e integrada) e a fase do posicionamento competitivo e estratégico. A identificação no mercado, a confiança, o valor, a intimidade, a fidelidade e defesa dos consumidores é o património natural do reconhecimento e valor de uma marca (brand equity).
Vem isto a propósito das opiniões veiculadas no Capeia Arraiana sobre a possibilidade de o forcão se deslocar aos Açores por ocasião das festas sanjoaninas. Começo por dizer que estou totalmente de acordo e que é, sem qualquer dúvida, uma excelente jornada de divulgação da nossa maior marca. O problema está naquilo que não foi feito até aqui, ou seja, quase nada. Aproveito para fazer uma análise à marca «Capeia»:
1 – O posicionamento é uma política e não um resultado. E o que foi feito até aqui? Folheando uma publicação da Câmara Municipal do Sabugal intitulada «Roteiro Turístico» as referências às capeias aparecem envergonhadas na página 42 (num total de 62) e teve direito a uma explicação de 12 linhas e uma foto. Errado! O posicionamento é uma decisão política estratégica e o concelho não tem uma marca com mais força do que as capeias. Porquê? Porque são genuinamente originárias das terras raianas. Um valor de marca (branding) que nunca foi utilizado até hoje. Defendo a criação de um grupo profissional, tipo forcados, que se desloque por todo o mundo a promover a nossa tradição apoiado pelos poderes oficiais. Criava cerca de 30 postos de trabalho (já vi dinheiro mais mal aplicado) com possibilidade de se tornarem auto-suficientes. Não é bem como uma banda filarmónica mas é parecido. Para os que não concordam recordo que há touradas com forcados em muitos países europeus e da América Latina.
2 – Nicho estratégico no mercado. «Para dançar o tango são precisos dois», diz uma bela definição que aprendi com os mais exímios praticantes argentinos durante uma reportagem no Festival de Tango que decorreu no Coliseu de Lisboa. Dá vontade de ir a correr aprender a dançar nas milongas lisboetas. E ir a Buenos Aires transforma-se logo numa prioridade. E pode-se dançar o tango em Lisboa? Será um sacrilégio? E levar a capeia a Buenos Aires e provocar nos argentinos o desejo de vir conhecer as terras do Sabugal?
Tenho feito parte da organização de muitas das capeias organizadas pela Casa do Concelho do Sabugal. Tem sido, sempre, uma grandiosa jornada de promoção da marca Sabugal. E trazer o forcão a Lisboa já é natural? E a Paris? E aos Açores? As respostas são simples. Seria extraordinário ver uma capeia em Madrid, em Barcelona, em Paris, em Moscovo, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires. Seria extraordinário obrigar aquela gente a ir ao Google Earth ver onde ficava o concelho do Sabugal e provocar-lhes a necessidade de nos visitarem.
3 – A História é, no século XXI, um projecto global da comunicação digital. No Sabugal faltou pensar o Sabugal. Um evento ou uma excursão, de fora para dentro, organizados fora do mês de Agosto, têm muita dificuldade em incluir uma capeia no seu programa no concelho do Sabugal. Erro tremendo com cerca de 100 anos. Repito. Já vi dinheiro mais mal gasto do que no possível apoio a um grupo profissional para agarrar ao forcão durante todo o ano.
4 – Em cada pessoa, em cada actividade, há sempre uma notícia. Aproveito para deixar mais duas perguntas. E cantar o fado no excelente auditório dos Fóios é natural? E a Mariza cantar fado em Tóquio é correcto? Claro que é. Mas possivelmente só devia ser cantado em Lisboa ou Coimbra…
Na actual conjuntura o conhecimento da marca tem de ser vertido com qualidade no copo de cristal do cliente apoiado na comunicação como um bem abstracto. O turista que chega pela primeira vez ao Sabugal, com excepção dos debutados placards colocados no tempo do presidente Morgado (excelente ideia) nada mais tem que identifique a marca «Capeia». Tantas rotundas despidas que podiam ser aproveitadas para valorizar a essência da alma raiana. Podiam…
Viva a Capeia Arraiana! Vamos com ela até ao fim do Mundo!

Obs. (1): Não sou existencialista nem admiro Sartre (1905-1980) muito citado pelos opiniáticos dependentes dos temas da sexologia (aprés um bom almoço de quinta-feira), mas como amanhã, domingo, é Dia da Mulher, aproveito para citar Simone de Beauvoir (1908-1986), emblemática figura do feminismo, da literatura e do pensamento franceses que «acreditava na possibilidade de inventar a vida e de para ela conquistar um sentido» quando afirmava: «O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da acção porque o homem é livre e encontra a lei na sua própria liberdade».

Obs. (2): O almoço da Confraria do Bucho Raiano superou as nossas expectativas e algumas mesas não tiveram bucho em abundância. Reconhecemos que não foi perfeito porque participou muita gente e os buchos não são confeccionáveis em cima da hora. Muitos confrades compareceram sem marcação. Mas estamos de consciência tranquila. Tal como estariamos se tivesse aparecido pouca gente e sobrassem muitos barris de cerveja alemã…
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

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