A relação do agricultor com a terra é um acto de amor que deveria ser entendido enquanto tal.

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»O meu sogro não é sabugalense, mas a sua vida confunde-se com a vida de muitos dos idosos do nosso Concelho.
Homem com quase oitenta e um anos, com doenças várias, algumas do foro oncológico, vive numa aldeia do Concelho de Castelo Branco com mais uma dúzia de pessoas.
Tem um conjunto de pequenas propriedades onde cultiva desde as batatas e couves que come, às laranjas e outras frutas, tendo também algumas videiras que dão o vinho suficiente para ele e a família beberem e mais algumas oliveiras donde tira o azeite que se utiliza nas refeições. É o que se pode chamar de um pequeno agricultor.
Dia de Carnaval, chegado à sua casa, vou ao seu encontro numa pequena vinha de um seu cunhado emigrante em França, que podava e onde enxertava castas brancas em algumas cepas tintas.
As dores nas costas obrigavam-no a parar amiúde, mas o seu amor à terra vindo do mais fundo de si era mais forte que as dores e rápido voltava ao seu labor.
O seu entusiasmo era tanto que de repente eu que nunca havia feito aquele trabalho me senti motivado para, sob a sua orientação, o ajudar.
Face a este puro acto de amor à terra, de um octagenário doente que, num dia de Carnaval, enfrentava as suas dores para tratar da terra a que sabe pertencer, percebi quanto estes homens são necessários ás nossas aldeias.
Não se trata, como ali ficava claro, de ter pena, mas de nos sentirmos orgulhosos da sua presença.
Não se trata de uma prática agrícola que visa, antes do mais, o lucro.
Trata-se de puro acto de amor que se traduz na preservação de um território que, sem eles, já há muito havia soçobrado.
A eles devemos o facto de as terras onde nascemos ainda existirem.
É uma geração que acaba, nada será como dantes quando eles desaparecerem, mas devemos-lhe um sentimento de gratidão imensa.
Tudo o que pudermos fazer para que eles continuem esta labuta de formiguinha não é uma benesse, é um dever.
Melhores condições de vida, acessos facilitados aos cuidados de saúde, apoios diferenciados, tudo o que pudermos dar a estes homens e mulheres é a nós que o damos.
Este é um tema que, estou certo, marcará a diferença entre os candidatos à Câmara Municipal já anunciados.
Não vai chegar deitar as culpas para o Governo, seja ele qual for.
Não vai chegar encher programas eleitorais com promessas de difícil, quando não impossível concretização.
Os nossos idosos merecem que lhes criemos as condições para que os seus últimos tempos entre nós tenham a maior qualidade possível. E que possam continuar a amanhar a suas terras como sempre fizeram…
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

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